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Expondo as raízes


Por Mauro Morais

19/06/2013 às 07h00

Alegoria desveiada

Alegoria desveiada

Os bordados de dona Nadir, a mãe, e as festas do pai seu José, bem como o quintal de casa, a religiosidade dos familiares e vizinhos, além de muitas outras lembranças de Guarani, cidadezinha na Zona da Mata mineira, constituem as principais referências estéticas de Paulo Alvarez. Enquanto outros artistas têm como influências primeiras os intelectuais que encontraram na faculdade, ou os gênios de séculos passados que sonhariam conhecer, ou, ainda, as grandes estrelas do mercado de arte, o guaraniense radicado em Juiz de Fora se volta para suas raízes na criação das obras que compõem sua trajetória criativa. Em "Alegorias tecidas", em cartaz até o dia 7 de julho na Galeria Celina Bracher, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), Alvarez reúne, entre colagens, esculturas, instalações e pinturas, trabalhos que traduzem o universo afetivo do artista, partindo de seu contexto familiar para desaguar nos gostos e vivências mais recentes.

Das grandes alegorias carnavalescas, cada vez mais tecnológicas e luxuosas, à ideia de alegoria como obra abstrata, passando pela concepção mais simples do termo, a de modo de expressão, Alvarez se aproveita do filósofo francês Walter Benjamin para localizar o espaço discursivo dos trabalhos que expõe. "As alegorias são, no reino dos pensamentos, o que as ruínas são no reino das coisas", define o autor do clássico "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". "Meu trabalho é muito alegórico no sentido de ajuntamento de coisas", comenta o artista, que utiliza peças adquiridas em feiras, antiquários, recortes de revistas, presentes de amigos, acervos de família e muitos outros objetos que poderiam soar quinquilharias, mas no olhar de Alvarez integram uma cena de império do belo. "É como se fossem pequenos cenários", confirma.

A fotografia de casamento dos pais, envolta numa detalhada moldura dourada, sobreposta a trechos de riscos de bordados feitos por dona Nadir na época em que se dedicava às agulhas e uma inscrição feita por Alvarez, "meu filho vai ter nome de santo", compõe um dos trabalhos mais sentimentais da mostra, simbolizando a tênue linha da intimidade na qual o artista se equilibra. "De alguma maneira é uma forma de estar com eles", conta, referindo-se ao núcleo familiar constituído por um irmão e pelos pais, todos já falecidos, mas que, a tempo, reconheceram o olhar sensível para as coisas cotidianas do garoto que se tornou publicitário e artista plástico sem se esquecer dos detalhes da vida no interior.

 

 

Construtor de excessos

Apesar das muitas referências às próprias memórias, a obra de Paulo Alvarez não se reduz ao tom de homenagem, já que o artista pesquisa suportes, técnicas e o próprio discurso das apropriações. A ressignificação de peças comuns, como um pequeno anjo quebrado – ganhado por um amigo, que o jogaria no rio por tê-lo quebrado, mas preferiu doar a Alvarez, na certeza de que renderia um trabalho – tem ganhado cada vez mais espaço na arte contemporânea brasileira. Partindo de Marcel Duchamp (aquele do urinol) e expandido seu "ready made", nomes nacionais e atuais perseguem o novo através do velho.

Um dos nomes de maior prestígio no cenário nacional e internacional, a carioca Rosângela Rennó exibiu em sua "Menos-valia", na 29ª Bienal de São Paulo, máquinas fotográficas, fotos de família, porta-retratos, rolos de filme, entre outros objetos comprados em feiras, questionando o sentimentalismo das ruínas, dos restos, discurso semelhante ao de Alvarez, quando ele cria um grande oratório cujo centro guarda uma cruz preenchida por rosas brancas, e, ao redor, dividem espaços terços, velas, crucifixos, santinhos e flores. "Mais que um criador, o artista pode ser um construtor", aponta, justificando a escolha pelas apropriações. "Sou dos excessos e tenho muita dificuldade em parar", comenta aos risos.

"Gosto de ultrapassar os limites. O artesanato e o design também cabem na arte", defende Alvarez, que bebe no barroco e na arte popular. "No momento em que vejo um significado em um objeto, acabo fazendo-o participar do meu processo. Não acho que esteja estragando. É a minha maneira de conservar", propõe, elencando um dos maiores ídolos nas artes plásticas, o paulistano Leonilson, que se consagrou através dos bordados e das referências aos sentimentos mais íntimos.

 

 

‘O cafona me interessa’

Das 25 obras expostas, quatro delas já apareceram em coletivas ou individuais passadas. Todo o resto é inédito, sendo que algumas duraram quase uma década para ser finalizada. Responsável pelo setor de expografia do Museu de Arte Murilo Mendes, Paulo Alvarez está sempre expondo, mas sempre as obras dos outros, tarefa que afirma alimentar o lado cenógrafo e figurinista. "Montar uma exposição para mim é como produzir um espetáculo", explica ele, que realiza diversas pesquisas, tanto espaciais, quanto de cores e textos. Com o tempo curto e com trabalhos densos – que não conseguem chegar ao fim sem amadurecer bastante -, o artista acaba por produzir pausadamente, mas com intensidade e fôlego.

"O cafona me interessa muito. Eu quero o popular e quero as pessoas que gosto em minha obra." De grandes proporções, o trabalho que ocupa sua sala no Mamm foi levado ao CCBM para confirmar que o artista que se expõe ao trabalhar com os bordados da mãe também se esconde na pintura de uma imensa raiz, feita com a terra do quintal de sua casa em Guarani, misturada a tinta e linhas.

Entre as muitas rendas, chitas, lonas, e tecidos finos, além de suas flores artificiais, tintas que se desgastam, rosas de papel retiradas de revistas, cortes de imagens de Da Vinci, trechos de altares católicos, fuxicos, retalhos e muitas outras referências à Minas profunda, Alvarez conclui sua mostra com a obra "Exercícios para uma cartilha botânica", que ao fundo revela um mapa topográfico de Juiz de Fora. As raízes de sua Guarani também se estenderam até aqui.

 

ALEGORIAS TECIDAS

De terça a domingo, das 9h às 21h. Até 7 de julho

CCBM (Av. Getúlio Vargas 200)