‘Meus livros me dão prejuízo financeiro’
"Sempre considerei Revert Henry Klumb um dos melhores fotógrafos que atuaram no Brasil do século XIX. Mais do que isso: um dos melhores do mundo inteiro em seu tempo." Convicto dessa ideia, o fotógrafo e escritor Pedro Afonso Vasquez esteve em Juiz de Fora no último fim de semana para falar sobre "O ideal de progresso tal como expresso nas fotografias de Revert Henry Klumb e alguns de seus contemporâneos", no seminário "União e Indústria: uma estrada para o futuro – Legado e possibilidades." Pesquisador da área da história da fotografia, com dedicação especial ao século XIX, Vasquez é formado em cinema pela Université de la Sorbonne e curador da exposição de imagens e objetos históricos do Museu Mariano Procópio, que está em cartaz no Espaço Cultural Correios. "A iniciativa mostra que o museu está vivo e ativo. Do ponto de vista estritamente fotográfico, seu acervo é um dos mais importantes do Brasil. A população não conhece 10% dele", afirma o autor. À frente do Instituto Nacional de Fotografia da Funarte, entre 1984 e 1986, implantou o Programa Nacional de Preservação e Pesquisa da Fotografia, do qual decorreu o Centro de Preservação e Pesquisa da Fotografia, o primeiro do gênero na América Latina. No meio editorial, acumula mais de 20 títulos publicados, entre os quais "O Brasil na fotografia oitocentista." De literatura infantojuvenil, já assinou três títulos.
Tribuna – Para um especialista em fotografia oitocentista, como você vê o atual momento da fotografia?
Pedro Afonso Vasquez – Acredito que vivemos o segundo momento mais importante da história da fotografia, equivalente apenas aos anos inaugurais, de meados do século XIX, quando diferentes técnicas surgiam sem cessar. Nas últimas três décadas, tivemos a consolidação da videoarte, a difusão do uso da informática e, depois, o advento da imagem digital. Por outro lado, o cinema também se mesclou com o vídeo digital, e, no campo específico das artes visuais, isso redundou no atual predomínio da imagem técnica. Com toda certeza, a época atual será estudada com grande interesse no século XXII, da mesma forma com que nos maravilhamos hoje com as conquistas realizadas pelos inventores do século XIX.
– E o que tem contribuído para o avanço da fotografia no Brasil?
– Diversos fatores, seja por iniciativa de instituições públicas ou particulares, ou por iniciativa dos próprios fotógrafos, reunidos em coletivos ou associações de caráter diverso e, em escala maior, na Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil.
– Você disse em entrevista que é preciso encher os museus e os centros culturais de visitantes, caso contrário eles perdem o respaldo financeiro e político. O grande público tem tido sensibilização para a obra de arte?
– Tanto os livros que escrevi sobre a história da fotografia no Brasil quanto as exposições que organizei ou das quais participei foram direcionadas para o grande público, numa espécie de trabalho de "catequese" que visa sensibilizar as pessoas para os vários meios de expressão impressos, muitas vezes desprezados no passado, como os selos, os cartões postais e a literatura de cordel. O interesse pelas atividades culturais no Brasil não para de crescer, apesar das dificuldades de acesso decorrentes da falta de recursos. Todos aqueles que, como eu, têm experiência com comunidades carentes (no meu caso, a das favelas da Maré e do Vidigal) percebem que a resposta popular é sempre intensa e irrestrita. O que é preciso é ousar, inovar e perseverar. O mais expressivo exemplo de sucesso na cultura brasileira dos últimos anos – e desde sempre – é mineiro: Inhotim. De modo geral, as exposições de fotografia têm atraído um público maior que as das disciplinas tradicionais, como pintura ou escultura, ou das propostas mais contemporâneas (como as instalações ou as performances) de caráter mais hermético.
– Você tem livros voltados para o público infantojuvenil. Como foi esta experiência?
– A única certeza que tenho é que fazer livros infantis é muitíssimo mais difícil que fazer livros para adultos, pois a criança é o mais implacável dos críticos. Se você não captar a atenção dela na primeira página, ela irá deixá-lo imediatamente de lado, ao passo que o adulto tem sempre a esperança de que o livro possa "melhorar" mais adiante, ou que será possível "entender" o autor. Com a criança é tudo ou nada, agora mesmo ou nunca mais. Não há segunda chance.
– Consegue sobreviver de livros?
– Não. É justo afirmar o contrário: eu vivo para os livros… Meus próprios livros só me dão prejuízo do ponto de vista financeiro, muito embora a maioria deles tenha esgotado a edição. Mas a remuneração do autor é muito modesta, pois corresponde apenas a 10% do preço de capa, dinheiro que vem pingado ao longo de muitos meses e que, de modo geral, você gasta com livros… De qualquer forma, ganhar dinheiro com meus próprios livros nunca foi o meu objetivo principal.









