‘Não é por ser cultura local que é bom’
Por que alguém tem que dar dinheiro para a gente? Onde está escrito isso?, indaga, já ciente da resposta, o produtor cultural Frederico Reder. Para alguém investir milhões no meu projeto, é necessário que eu entenda que também tenho que pagar a necessidade dele. O patrocínio é um benefício que se dá à cultura, mas a empresa também quer retorno, explica. É preciso parar de pensar que quem tem o dinheiro na mão tem obrigação de priorizar o produto da casa. Não é por ser cultura local que é bom, ressalta. Hoje todo mundo veio falar comigo que a política não investe na arte de Juiz de Fora. Mas o que é local tem qualidade?, questiona.
Natural de São Gonçalo e radicado no Rio, Reder é um dos expoentes nomes da cena carioca. Aos 28 anos, foi o responsável por revitalizar o Teatro Tereza Rachel – localizado no coração de Copacabana – depois de 10 anos desviado de sua função inicial, incluindo locações para uma igreja evangélica. Durante esse período, Governo do Estado, Sesc, prefeitura e globais de renome como Miguel Falabella tentaram, em vão, arrendar o espaço. Por meio de parceria entre a empresa de sua propriedade, Brainstorming Entretenimento, e a NET, o local foi reaberto com o nome de Theatro NET Rio. A empreitada rendeu a Reder a indicação ao Prêmio Shell de Teatro 2013. Na última terça-feira, ele esteve na cidade para proferir palestra no seminário Empreendedorismo e incentivos fiscais: Valorização da cultura local, realizado no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, pela CorreCotia Produção Cultural e a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac/JF), dentro da programação da 12ª Campanha de Popularização do Teatro.
Antes de tudo, é preciso ter em mente que a indústria do entretenimento é um negócio e, como tal, é responsável por uma boa parcela da economia brasileira, conforme aponta o produtor. Para fomentar a cultura da região, é necessário que a classe artística faça, inicialmente, um diagnóstico da situação. Não podemos nos colocar à margem do sistema, como temos feito a vida inteira. Temos que parar de andar com um pires na mão e se pôr como um coitado que pede uma ajudazinha para fazer um teatrinho. A gente não pode chegar na padaria e dizer: ‘olha, desculpa sou ator, me dá um pão?’ Não é essa a troca. A permuta, e isso é uma coisa que eu fiz muito, tem que existir, mas tem que ser justa e honesta. Caso contrário, desvaloriza o que a gente tem para vender. Nosso negócio é sério, salienta.
Sem papas na língua, Reder se declarou contra as leis de incentivo, que, em sua opinião, mais prejudicam que contribuem com as produções teatrais. Segundo ele, sem o benefício, as companhias investiriam mais na criatividade de seus trabalhos, deixando de lado a zona de conforto. Meu orçamento no Teatro Net era de R$ 22 milhões, nós gastamos R$ 8 milhões, e fizemos tudo o que faríamos com o montante inicial. De repente, se tivéssemos tudo, não teria ficado tão bom e nem seríamos indicados ao prêmio. Eu tive que inventar moda, economizar. A falta faz você criar, reavaliar e equacionar. Acreditem, esse momento de não ter é mais proveitoso, é o que nos faz crescer mais. Sempre digo que cheguei onde estou, porque não tive motorista, brinca. Sabe aquela coisa que todo mundo fala que santo de casa não faz milagre? Os grupos de teatro de vocês precisam começar a fazer sucesso lá fora e, depois, chegar aqui com uma crítica da Bárbara Heliodora nas mãos.
Compondo a mesa de discussão, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, apresentou o que vem sendo realizado em Juiz de Fora na cultura e chamou atenção para a dificuldade de captação de recursos para iniciativas, como a do Teatro Paschoal Carlos Magno. Ainda não descobrimos o pulo do gato. Temos ótimos projetos aprovados e não conseguimos captar. Quando fomos procurar uma empresa local, eles nos disseram que o foco deles não é Juiz de Fora. Por que não investir aqui também? Não é bom só o que é global, comenta.
Temos que contar o que é ruim, mas temos que falar do que é bom também. Quem disse que o Poder Público não dá dinheiro para a cultura aqui da cidade? A administração passada investiu R$ 1.150 milhão no apoio a projetos de artistas locais com recursos do município. É baixo? É. Mas temos que ver o tamanho das nossas pernas e nossos braços. Não adianta colocar um orçamento de R$ 2 milhões como o Bejani fez e não pagar desabafou o superintendente.
Para Frederico Reder, um dos caminhos é a profissionalização – status alcançado, desempenhando um trabalho simples, mas de qualidade. As peças têm que estar à altura de sua plateia. Caso Juiz de Fora não abrigue boas montagens, a solução, para atrair público, é trazer grandes produções de outras cidades para fazer um revezamento com os trabalhos locais .O artista precisa parar de achar que é só pintar a cara, ir para a rua e dizer que aquilo é arte. As organizações não associam sua marca a um teatro que, na portaria, tem alguém sem dente na frente e de chinelo. Vamos formar espectador, mas com dignidade. Por que não levar um grande espetáculo infantil para o Cine-Theatro Central? Que se busque uma peça em qualquer lugar. Se num mês tivermos uma produção maravilhosa de fora e no outro uma daqui, a pessoa acaba pegando o hábito de ir ao teatro, aconselha.
Por que tem público onde tem mais dinheiro? Porque as pessoas que vão a Nova York tem outras referências. Quem vai ao NET Rio tem condições de assistir à Broadway. Por isso, minha entrega tem que ser do mesmo nível. Por que Juiz de Fora não capta? Será que é porque o teatro ainda não está profissionalizado por aqui? É muito fácil achar que vai montar ‘A pequena sereia’ com uma atriz de peruca, dublando uma faixa do filme e chamar aquilo de espetáculo. Se não tenho milhões para investir, é preferível que eu monte algo modesto. Outra sugestão é fazer repertório. Fique com a peça durante três anos e pense nos detalhes. É estupidez produzir ‘A Bela e a fera’ com R$ 100, conclui.









