Muito além de Paulínia
Para ser grande, é preciso esforço e muita paciência. Não basta querer. É imprescindível conhecer o mercado e construir relações sólidas, a fim de não resvalar em descontinuidade. A receita, obtida ao longo de dez anos, é dada por César Piva e Mônica Botelho, diretores executivos do Polo Audiovisual da Zona da Mata, iniciativa consolidada na última semana em cerimônia que levou a Cataguases, onde tudo começou, a pré-estreia do filme "Meu pé de laranja-lima", dirigido pelo cineasta Marcos Bernstein. Rodado na cidade, o longa estrelado por José de Abreu, inaugura uma agenda de lançamentos comerciais que não apenas utilizaram a região como cenário, mas se aproveitaram dos profissionais locais, confirmando a vocação e o fôlego do projeto.
De olho numa fatia de mercado disponível a partir do enfraquecimento do Polo Audiovisual de Paulínia, no interior paulista, e aproveitando a boa fase da televisão brasileira, iniciada com a nova lei da TV paga ( Lei 12.485/2011), que prevê cotas de participação da produção nacional em todos os canais por assinatura, o polo surge gerando boas expectativas tanto no meio cinematográfico quanto na cena artística nacional. Foco das últimas gestões do Ministério da Cultura, a economia criativa, processo no qual intelecto e capital se conjugam num mesmo cálculo, é a palavra de ordem do projeto. "A chance de o polo sobreviver é maior. Talvez não conte com o investimento financeiro que teve Paulínia no início, mas temos a possibilidade de crescimento e permanência", discursa Mônica. Para César Piva, gestor da incubadora cultural Fábrica do Futuro, a realidade do projeto ainda é muito diferente do maior centro cinematográfico do Brasil montado no estado de São Paulo, mas as perspectivas indicam uma evolução consistente. "Comparar é sempre muito complicado, com dimensões e aspectos muito diferentes. Paulínia nasceu de uma iniciativa do Governo, com recursos bastante significativos", pondera Piva. "Paulínia tinha muito mais recursos e estrutura, mas faltou a legitimidade histórica e a articulação de mais agentes", comenta Mônica, que, ao lado de Piva, visitou experiências no Brasil e no exterior para, então, formatar um modelo que dialogasse com a região.
De acordo com Mônica Botelho, representante da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho e da empresa Energisa, muitos passos foram dados até a institucionalização e a formalização do polo. Em 2011, foi criado um conselho gestor, composto por 15 organizações; no ano passado, com o apoio do Sebrae, foi constituído um consórcio intermunicipal, que garantia a presença de mais cidades no projeto; e integrando a iniciativa privada, responsável por financiar algumas produções, as organizações da sociedade civil e o governo, criou-se, ainda, o Instituto Cidade de Cataguases. "Precisávamos de um projeto de impacto cultural e financeiro na região, e a indústria do audiovisual possibilita isso", aponta Mônica.
Um "Querô" na ficha técnica
O reconhecido projeto de inclusão utilizado pelo cineasta Carlos Cortez para montar o elenco do filme "Querô", sobrevoa o polo, confirmando o potencial mobilizador do cinema. Inaugurado na última semana, o Estúdio-Escola foi montado num antigo galpão de Cataguases, terra natal do pioneiro Humberto Mauro conhecida por suas muitas fábricas, e deverá receber tanto produções que anseiam por filmagens em pequenos espaços projetados, quanto moradores da região que desejam se capacitar para trabalhar na área. "A parte técnica está muito carente. O mercado já está saturado de diretores", aponta César Piva, afirmando que hoje é muito mais fácil uma gravação parar por falta de técnicos do que diretor, como acontecia há uns anos. Refletindo um panorama também observado em outras expressões, como teatro, música e na própria televisão, Piva reivindica formação para funções como iluminador, maquinista, cenotécnico, entre outras.
Coordenador do Estúdio-Escola, o cineasta juiz-forano Marcos Pimentel ressalta a intenção de manter o espaço ocupado, ativo e movimentado. Para isso, eles criaram alternativas que permitem deslocar com facilidade todos os móveis, equipamentos e objetos. Prevendo, ainda, investimentos no local, Mônica Botelho aguarda a inserção de equipamento de climatização e acústica, além de modernas máquinas. "Durante muito tempo, Minas Gerais foi utilizada como cenário, como locação. Nossa intenção agora é que as produções possam incorporar os mineiros às suas obras", explica Pimentel. "Esse projeto é fundamental para que essa região passe a ser protagonista de sua própria história. E isso é fundamental no processo de formação do indivíduo", completa.
Quem sabe Juiz de Fora…
Prestes a entrar no circuito comercial, no dia 19 de abril, "Meu pé de laranja-lima", inspirado na obra homônima de José Mauro de Vasconcellos, é a primeira produção de grande circulação a receber o apoio do Polo Audiovisual da Zona da Mata. Mas desde 2010 quatro longas-metragens e 12 curtas já foram produzidos. Para esse ano, estão agendadas as filmagens de "Estive em Lisboa e lembrei de você", dirigido por José Barahona, numa co-produção entre Brasil e Portugal; "A família Dionti", de Alan Minas; e "Cataguases", sob direção do global José Luiz Villamarim. O curta "Amigos", do juiz-forano Aleques Eiterer, também consta na lista das próximas produções. Inspirados na obra do escritor cataguasense Luiz Ruffato, os filmes de Barahona, Villamarim e Eiterer esperam ganhar as telas em 2014. "São produções que têm pertinência em acontecer em Cataguases", destaca Mônica Botelho, que recebeu Ruffato para a abertura do Estúdio-Escola.
Vislumbrando o potencial das outras mídias que envolvem o audiovisual, César Piva planeja a produção de conteúdos para televisão, celular e jogos. "Para nós, essas grandes produções são muito importantes por darem visibilidade e prestígio ao polo. Esse é o nosso carro-chefe, mas a gente também quer mais", discursa Piva. "A gente não quer só atender demandas, mas produzir conteúdo próprio. Não queremos um polo fixo e tradicional. Queremos o movimento. Eu posso fazer a música em Juiz de Fora, produzir em Nova York e filmar em Cataguases", completa, para logo em seguida fazer um convite: "Espero que daqui a pouco tenhamos um pedaço do polo em Juiz de Fora".









