Ismair Zaghetto fala de cultura e memória
"Nem senhor, nem professor. Sou apenas o Ismair." As primeiras palavras escritas no quadro-negro pelo sociólogo e jornalista Ismair Zaghetto – "senhor" e "professor" -, no contato inicial com as turmas universitárias para as quais leciona, logo são riscadas, evidenciando a cumplicidade com os ideais e o desapego às normas. "Me sinto extremamente à vontade em sala de aula. Sento no chão, tiro os sapatos. Quando falo aos alunos sobre a força transformadora da cultura, subo na mesa." O primeiro superintendente e criador da Funalfa, intelectual de mente aguda e estantes vazias – já que dividiu seu acervo de 1.500 obras em muitas outras prateleiras -, testemunha e participante ativo da história contemporânea juiz-forana, compartilhou, na noite da última terça, suas memórias e opiniões no projeto "Diálogos abertos", no Museu de Arte Murilo Mendes. "Sou de uma geração de pessoas fantásticas, como Itamar Franco, Mello Reis, Murilo Hingel."
Instigado pelos entrevistadores Douglas Fasolato, diretor do Museu Mariano Procópio, assim como a editora-executiva da Tribuna, Denise Gonçalves, a jornalista Kátia Dias, o advogado Rolf Benda e o chefe do Departamento de Memória da Funalfa Nilo Campos, além do mediador José Alberto Pinho Neves, pró-reitor de Cultura da UFJF, Zaghetto voltou ao tempo em que os sapatos eram obras de arte, feitos à mão pelo pai João Zaghetto, e o menino que morava no Centro da cidade se arriscava nos ofícios de engraxate, carregador de cestas na feira e serralheiro.
"Vê se não vai colocar o nome dele de Therezinho", disse o tio de Zaghetto quando a mãe foi à Maternidade Therezinha de Jesus dar à luz ao futuro jornalista. "A maioria das grávidas iam para lá. Por isso, era um tempo de muitas Therezinhas", relembra de forma saudosa Zaghetto. Criado no tempo das Therezinhas, o sociólogo morava na Rua São Sebastião, em um "beco pouco iluminado e com moradias coletivas". "Estava a poucos metros, 200 ou 300, talvez, da famosa zona boêmia de Juiz de Fora, na parte baixa da Rua Floriano Peixoto com a Hipólito Caron", conta. Naquela época, o terreno onde foi construída a então reitoria da UFJF – e que hoje abriga o Museu de Arte Murilo Mendes – era um campo de futebol. "A bola podia ir para o meio da Rua Benjamin Constant e fazia a alegria dos garotos como eu. Contrariando Ataulfo Alves: eu era feliz e sabia."
Posteriormente, Zaghetto ocupou, durante mais de 40 anos, as principais redações de jornais da cidade, sendo colunista de economia na Tribuna. "Entrevistei o primeiro reitor da UFJF, Moacyr Borges de Mattos. Na verdade, acho que entrevistei todos os reitores", relembra, ao se deparar com os quadros de todos aqueles que estiveram à frente da instituição nas paredes do Mamm. Sempre em meio às letras do jornalismo, Zaghetto se diz surpreso com o fato de os jornalistas não serem considerados literatos. "Pois se vivemos uma vida inteira escrevendo…" Para não sofrer muito, o jornalista diz "ir deixando aos poucos as coisas pelo caminho". "Deixei o jornal em 2002, mas um pedaço ficou lá na redação."
Voraz leitor de biografias e escritor de obras que remontam personagens e passagens históricas, como "Machado Sobrinho: o guerreiro da utopia" e o recém-lançado "Itamar e o bando de sonhadores", Zaghetto se prepara para lançar seu primeiro livro de ficção, "Chá com Procópio Ferreira", embora já tenha flertado com o gênero. "Tive a oportunidade de entrevistar Procópio Ferreira por duas horas. A única história do livro – que tem outras 15 – de não-ficção é justamente essa passagem. Pois se Franco Zeffirelli pode tomar um ‘chá com Mussolini’, por que não posso tomar um chá com Procópio Ferreira? Não foi bem um chá, na verdade foi um cafezinho. Mas chá soa bem mais charmoso."
As lembranças de março de 1964 permanecem intactas na memória de Ismair Zaghetto. "Estava sentado de um lado da cama de Itamar, que estava muito adoentado, enfraquecido por uma hepatite altamente contagiosa, e líamos as manchetes dos jornais enquanto Dona Itália dava a ele um mingau de maisena. Na véspera, tinha acontecido o famoso comício na Central do Brasil. Ele, então, me disse: ‘Ismair, a vaca foi para o brejo’. Respondi que ‘não só a vaca, mas tudo foi para o brejo’. E estávamos longe de imaginar que aquele processo duraria quase 30 anos", conta.
Itamar foi um divisor de águas para Juiz de Fora, segundo Zaghetto. "Surge aquele moço, falando de coisas estranhas à época, como planejamento e infra-estrutura, algo tão banalizado hoje", reflete. O posto de importância que Juiz de Fora alcançara nas décadas anteriores, de grande polo do pensamento cultural e industrial mineiro, "quiçá brasileiro", fez com que aqueles que acompanhavam os gráficos econômicos em 1950 se preocupassem. "Foi então que o estalo de modernidade na cidade aconteceu."
"Na contramão de outras cidades da região, Juiz de Fora optou por dar as costas ao Barroco e falou: ‘vou-me embora para o mar’. Para o bem, ou para o mal. Decidimos ser mais cosmopolitas. A modernidade veio, ainda que tardia em relação ao Rio e a São Paulo. E Itamar foi esse divisor de águas."
Quando assumiu a responsabilidade de implantar a Funalfa, em 1978, Zaghetto não fazia ideia das provações acarretadas pela mudança. "Me lembro que implementamos um projeto chamado ‘Tear’, que evocava o duplo sentido do ato de tecer o do próprio equipamento. Levamos então uma orquestra famosa na época para um palco montado em frente à Câmara Municipal. Vendo o espetáculo, uma mulher voltou-se para mim indignada, em frente ao prefeito Mello Reis: ‘O senhor é muito abusado! Colocar essa orquestra para tocar no meio da rua’." Embora tivesse vontade de responder prontamente à senhora, dizendo-lhe que na Europa existiam espetáculos como esse a cada esquina, preferiu calar-se. "Juiz de Fora era e é até hoje uma cidade muito conservadora."
"Poderia ter sido outro, mas tive o privilégio de ser o primeiro superintendente da Funalfa. Foi uma mudança difícil, pois não tínhamos referências, parâmetros. Não havia outra fundação municipal oficial de cultura. Uma fundação é infinitamente diferente de uma secretaria. Ela possibilita uma maior mobilidade, já que a secretaria é muito engessada burocraticamente", explica. Sem falsas modéstias, Zaghetto exalta a importância do modelo. "Hoje existem cerca de mil ‘Funalfas’ espalhadas pelo país."
Certa vez, o sociólogo passava uma tarde no Museu Mariano Procópio quando se deparou com uma senhora falando em tom um tanto exaltado com um dos funcionários do parque. Quando indagou ao homem sobre o que a mulher falava, ele não soube responder. "Então, me aproximei dela e percebi que era uma senhora francesa que tentava falar espanhol. Ela me disse estar surpresa, pois permanecera na janela que dava para o jardim durante algum tempo, e ninguém havia passado. Na cidade dela, nos arredores de Paris, com certeza aquele local estaria cheio de gente. A relação de Juiz de Fora com a cultura tem mesmo seus altos e baixos."









