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Artistas no palanque, nas ruas e na rede


Por MAURO MORAIS

07/07/2013 às 07h00

Da região metropolitana de Recife, Abreu de Lima, que hoje conta com menos de 100 mil habitantes, deu o pontapé inicial a um dos movimentos mais comoventes da história recente do país. Em 31 de março desse ano, o pequeno ato de uns poucos gatos pingados completou 30 anos. De junho a novembro, Goiás, Piauí e Pernambuco também deram lugar a tímidos protestos, que ganharam corpo na São Paulo de 27 de novembro de 1983, quando morreu o senador Teotônio Vilela. Somente no ano seguinte, de fevereiro a abril, o movimento Diretas Já ganhou força, alcançando a proposta de eleições presidenciais diretas. Lado a lado, artistas brasileiros de peso internacional e sindicalistas radicais, além de muitos outros conhecidos e desconhecidos. Como num revival, o país volta a reconhecer a expressividade política dos artistas e dos anônimos, todos povo na massa de pessoas que saíram às ruas nas últimas semanas.

No dia 29 de fevereiro de 1984, quando todo o país já estava mobilizado, o fotógrafo da Tribuna Beto Carreira disparou sua câmera para o mar de gente que cobria toda a Praça da Estação. No palanque, além do governador Tancredo Neves – que chegou a Juiz de Fora por volta das 18h e retornou à capital na mesma noite – políticos do porte do senador Pedro Simon, representando o presidente do PMDB, Ulisses Guimarães, e o então prefeito Tarcísio Delgado e Itamar Franco, na época senador. Na manchete da Tribuna do dia seguinte: Diretas levam o povo à praça. No título da matéria que tomava duas páginas do jornal: Diretas, comício leva 30 mil às ruas de JF.

No decorrer da reportagem que dava detalhes da manifestação – Houve quem chorasse, relatava a matéria, apontando o forte clima nacionalista despertado pelo hino nacional -, o que mais se destacava era a presença de artistas importantes para o cenário do país. O mais aplaudido, porém, não tinha voto e nem queria ser votado, foi o cantor e compositor Gonzaguinha. Quando cantou ‘o que é o que é’ a massa foi junto, conta o registro, ao lado da foto do músico com microfone na boca e disparando: Meu negócio é cantar pelas Diretas.

Além do autor de Comportamento geral, um dos estandartes da ditadura militar, subiu ao palco do comício os portelenses Monarco e Noca e a sambista Cristina Buarque de Holanda. Em comícios semelhantes, feitos nas grandes capitais, Milton Nascimento, Chico Buarque, Christiane Torloni, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros, dentre eles a voz oficial, Fafá de Belém, que bradava por tudo quanto é canto Menestrel das Alagoas, composição de Milton em homenagem a Teotônio.

Enquanto na década de 1980 Juiz de Fora somava pouco mais de 300 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto de Pesquisa e Planejamento (Ipplan), atualmente o município conta com 516.247, de acordo com último Censo, realizado em 2010. No movimento das Diretas, 30 mil pessoas saíram às ruas. Nos últimos protestos, 15 mil passaram pelas principais vias do Centro. Aparentemente um contrassenso, os números se justificam, já que, no protesto passado, toda a região se deslocou até a cidade para reivindicar o voto presidencial. Nas atuais passeatas, mesmo os pequenos municípios levantaram suas bandeiras de forma autônoma.

Passadas três décadas, não apenas os números são diferentes, mas os desejos, também (hoje tem a PEC 37, o deputado Marco Feliciano, a corrupção crescente e muitos outros fatos que causam revolta). O que continua é a participação das artistas no processo político nacional. Esbravejando nas redes sociais, muitos deles saíram de casa, pintaram a cara e gritaram nas ruas. Em seu Facebook, Caetano Veloso bradou: De minha parte, identifico-me com os manifestantes. Eles estão dando voz a sentimentos ainda inarticulados. Têm que nos fazer pensar.

Na onda dos protestos contemporâneos, Seu Jorge e Tom Zé lançaram músicas na internet engrossando o coro. Leoni e Latino tiraram composições do baú atualizando-as com os novos acontecimentos. Pitty, Criolo e muitos outros subiram aos palcos e não deixaram o momento passar em silêncio. Polêmico, o trabalho do fotógrafo paulista Yuri Sardenberg, intitulado Dói em todos nós, fez circular pela rede as imagens de atores como Carmo Dalla Vecchia, Thaila Ayala, Mayana Neiva e Miguel Rômulo com o olho roxo, em referência à jornalista da Folha de São Paulo agredida durante o trabalho.

Via Instagram, os atores Bruno Gagliasso, Fernanda Rodrigues, Bruna Marquezine e a cantora Maria Gadú registraram os momentos em que integraram as imensas passeatas do Rio de Janeiro e de São Paulo, que levou mais de um milhão de brasileiros às ruas. Entre o irônico e o agressivo, o tropicalista Tom Zé, em sua criação chamada Povo novo (disponível em seu site tomze.com.br), canta: A minha dor está na rua / Ainda crua / Em ato um tanto beato, mas / Calar a boca, nunca mais! / O povo novo quer muito mais / Do que desfile pela paz.

Para bom entendedor… Tom Zé não apenas comenta a rua cheia, mas alfineta a dispersão de reivindicações, e, até mesmo, uma possível vulgarização dos que saem de casa (o compositor indica até mesmo um certo romance na letra). Num posso ir pra rua. Seria redundante demais. Eu sou da rua. Eu sou a rua, esbravejou a cantora Ellen Oléria em sua página no Facebook. Seguindo a acidez de Tom Zé, Ellen defende que sua música é sua bandeira na luta. Façam a parte de vcs e deixem que sei bem como fazer a minha. Por um país melhor tô batalhando faz tempo. Num sou movida pela gritaria das multidões mas pelo desejo que me inquieta há muito mais que duas semanas, disse, para logo completar: Eu continuo dando minha contribuição botando essa minha cara preta em rede nacional, nos ônibus, calçadas, lojas, papéis, pra fazer minha política: Meu som. Minha poesia. Minha arte.

Onde está o artista? E o cidadão?

Como Ellen Oléria, o poeta e historiador Tiago Rattes também respira a rua. E seus textos, urbanos em essência, comprovam isso. Ainda assim, ele não se deixou ver passar pela janela os 15 mil juiz-foranos. Se rendeu e participou, ativamente, das manifestações. Sempre estive presente nas lutas, muito por conta dos movimentos estudantis. Minha participação política vem antes da escrita, relata, afirmando que sua presença se deu muito mais pelo interesse como historiador, já que sua literatura se volta para discussões mais profundas, que não chegaram a entrar nas pautas recentes, como a desigualdade social e a violência urbana, assuntos diretamente relacionados às reivindicações, mas pouco explorados pelos protestos.

Segundo Rattes, os artistas que mais se mobilizam atualmente não estão na grande mídia, como o poeta paulista Sérgio Vaz. À maneira de Ellen, Vaz assume a luta em seu cotidiano. Idealizador da Cooperifa, ele desenvolveu um projeto poético voltado à comunidade de Capão Redondo, valorizando a escrita dos moradores. Tenho visto uma certa ausência dos artistas nesses movimentos e, principalmente, da cultura entre as pautas de reivindicação, aponta o músico Edson Leão, que diz observar perplexo a força dos acontecimentos.

O que Leão e Rattes apontam em comum é a expressividade de uma arte política que se mantém à margem da sociedade e, talvez por isso mesmo, não engrossaram o coro dos descontentes. Estamos, de alguma forma, fazendo a nossa guerrilha ao produzir nossa arte, resume Leão. Sei que tenho uma posição um pouco diferenciada por ser artista, mas na maior parte do tempo eu coloco as minhas angústias para fora. Em um momento desses, não tem como pensar que devo zelar por uma imagem artística. Sou cidadão, completa.

De acordo com Rattes, as manifestações convidam o cidadão: A presença dos artistas influencia menos porque a organização é mais horizontal. Mesmo que já apontem aproveitadores em busca de palanques, os movimentos de hoje, iniciados na internet e sem poderes hierárquicos, como diz Tom Zé, acontecem numa esquina próxima, não têm precisões. As vozes, que há 30 anos ganharam destaque em palcos políticos, hoje integram um coro uníssono. A multidão é uma só.