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Pelas vias do sensível


Por MAURO MORAIS

08/05/2013 às 07h00

"A gente quer a vida, como a vida quer", cantam os Titãs na música "Comida" (Marcelo Fromer / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto). Apesar de forte, a canção reivindica leveza, com a convicção de que o presente merece mais suavidades. Certos de que já existem pesos demais no cotidiano, os músicos que se reúnem para o show "Todos os tons da paz", que acontece amanhã, às 20h, no Cine-Theatro Central, confiam na descontração como caminho para alcançar a sensibilidade de um repertório exclusivamente ligado à temática da paz (ou da falta dela). Entre risos e um tanto de brincadeiras, eles demoraram mais de 30 minutos até posar para a foto ao lado. Se divertiam ao falar do atual cenário de união na música de Juiz de Fora. Mas, ao tocar "Socorro", canção da mesma Alice de "Leve" em parceria com Arnaldo Antunes, num dos últimos ensaios, a leveza ainda prevalecia, mesmo com todos os imperativos angustiantes de versos como "Qualquer coisa que se sinta / tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva".

Com um repertório entre as indispensáveis "A minha alma" (Marcelo Yuka), "A paz" (Gilberto Gil/João Donato) e "Se eu quiser falar com Deus" (Gilberto Gil) – todas com arranjos diferentes – e outras menos diretas, como "O meu guri" (Chico Buarque) e "Podres poderes" (Caetano Veloso), músicos de diferentes formações e gerações de Juiz de Fora se encontram para refletir os cruéis índices de violência na cidade. A banda, formada por Adalberto Silva (baixo), Anderson "Fofão" Guimarães (percussão), Leandro Scio (bateria), Lucas Soares (violão e guitarra), Rafael Castro (piano e acordeom) e Caetano Brasil (clarinete), acompanha dez cantores locais, além do Coral da UFJF. Dividindo os vocais: Carlos Fernando Cunha; Daniel Marques, vocalista da Visco; Edson Leão, do Eminência Parda e do FBI; Fabrício Conde; Geraldo "GG", do Só Parênte; Gilbert Salles, do Kbeça de Nêgo; Ricardo Capra, do Zonablue; Roger Resende; e Thiago Miranda.

Promovido pela Funalfa, o espetáculo com cores de grande produção, pratica outro formato de troca de ingressos (antes, livros eram convertidos em entradas). Agora, mais vale uma ideia na mão. Cada ingresso implica em uma sugestão para o combate à violência. "Queremos despertar a sociedade através da arte", aponta Fernanda Amaral, uma das produtoras do evento. "Não se trata só da violência física, mas tocamos em outros pontos, como o preconceito", completa, destacando o cuidado com que o espetáculo foi pensado para que não resvalasse em pieguice. Com cenografia de Toninho Dutra, superintendente da Funalfa, e Daniel Rodrigues, artista plástico que integra o corpo criativo da fundação, figurino também idealizado por Dutra e direção musical de Lucas Soares, o show não se rende aos brancos e às pombas, mas segue por outras vias, para o mesmo resultado: falemos de paz!

 

Por sutilezas

Segundo Lucas Soares, os arranjos foram construídos coletivamente, e os intérpretes foram escolhidos para canções que os retiravam de suas zonas de conforto. "É um recorte que prima pela exposição da música, aliando o tradicional ao sofisticado", comenta, para logo completar: "Para as várias facetas que desejávamos, a gente precisava ter várias caras diferentes". Do forró ao rock, passando pelo blues e desaguando em samba, os estilos se encontram no palco de forma harmônica. "Cara de índio", canção de Djavan, entoada por Carlos Fernando Cunha com arranjo semelhante à gravação que a lançou, em 1978, soa vigorosa, atual e coerente, sem grandes sobressaltos que poderiam ecoar panfletário demais. Em tempos de Aldeia Maracanã, versos como "sua ação é válida, meu caro índio" são cantados com delicadeza, reforçando a ideia de sugerir reflexão.

Recitados pelos atores Zezinho Mancini e Bruno Quiossa, poemas de Carlos Drummond de Andrade, Marilda Maestrini e Julio Satyro reafirmam o espaço de lirismo que "Todos os tons da paz" persegue. Da mesma forma, o espetáculo agrupa quatro músicas de autores da cidade, como a sensível "Feito a mão", de Anderson "Fofão" Guimarães, que versa sobre um espaço lúdico da infância comparado ao trabalho dedicado de um artesão. "Também trabalhamos a estética como discurso", comenta Soares. "Os movimentos externos, hoje, estão interferindo diretamente no interior. Ninguém olha para dentro", defende o músico.

 

Voltando-se para esse exterior, comentado por Lucas Soares, os músicos assumem uma postura política, feita, à maneira da arte, pelas vias do sensível. Para Carlos Fernando Cunha, a ideia do show não é servir como panfleto, mas passar uma mensagem subliminar. "Claro que a gente sabe que não vai resolver a violência, é algo muito maior. Mas educar a sensibilidade das pessoas faz parte", comenta. "Acredito que cada um de nós pode fazer a sua parte", aponta Ricardo Capra. "A arte tem o poder de sensibilizar. Talvez, se nossos menores tivessem explodido com um microfone nas mãos, as coisas seriam diferentes", completa Gilbert Salles.

Mobilizados, esses músicos revelam uma cena harmônica, feita em frequentes processos colaborativos, como por exemplo o Encontro de Compositores, que permite novas parcerias a cada nova reunião. "A harmonia é por uma questão de sobrevivência. Por mais que existam alguns artistas com uma carreira já estabelecida, somos carentes dessas parcerias. Gritar junto para gritar mais alto", reforça Salles. "A música não é plena da mesma forma quando a gente faz junto", concorda Caetano Brasil. Fazendo coro, como no último número do show, Edson Leão analisa: "A nossa arte implica em união para que aconteça. O simples fato de unir pessoas em prol da paz já é um símbolo forte para a transformação". Anderson "Fofão" Guimarães finaliza: "Não é contra. Estamos em prol, e isso, em si já é algo muito bom".