‘Sou um contador de histórias’
Um grande pensador, além de uma pessoa incrível – mas não um anjo. É assim que o franco-argelino Jacques Derrida, um dos principais expoentes da filosofia pós-moderna- embora nunca tenha aceitado o rótulo abertamente – é descrito por seu biógrafo, o francês Benoît Peeters.
Em passagem no Brasil para o lançamento de Derrida – Biografia, da Vozes, Peeters esteve em São Paulo, no Rio e, por fim, em Juiz de Fora, falando sobre o pensamento, a vida e a obra do filósofo. Cada vez mais tenho a noção da internacionalidade de Derrida. Tenho tido a chance de falar com pessoas que o estudaram e mesmo o conheceram, e isso é muito enriquecedor, pois me proporciona uma percepção diferente de seu trabalho e do meu.
O Brasil também esteve na rota do próprio Derrida: sua última aparição pública, antes de morrer em decorrência de um câncer no pâncreas, se deu em um seminário no Rio de Janeiro em 2004, a convite de Evando Nascimento, que já lecionou na UFJF e assina a contracapa do livro de Benoît. Na época, Derrida já estava muito doente. Ele morreu poucas semanas depois daquilo. Mas o fato de ele ter aceitado participar deste evento foi muito corajoso e nobre. Por isso, lançar um livro sobre ele aqui no Brasil também tem este lado especial, conta Benoît.
Na biografia, diversos aspectos de Derrida são revelados, da infância pobre na Argélia à consagração mundial e as querelas intelectuais com outros pensadores contemporâneos, como Foucault, Lévi-Strauss e Habermas, em uma narrativa que extrapola o registro dos feitos de um grande intelectual e flerta com conceitos filosóficos, mas é, acima de tudo, uma boa história para se ler. Quis ser histórico, factual, preciso, mas também respeitoso, porque tenho uma grande memória de Derrida como pessoa, por tê-lo conhecido pessoalmente. Por isso, este livro é também um marco de admiração.
Tribuna- Qual é a relevância de se estudar o pensamento de Derrida hoje?
Benoît Petters- É difícil falar sobre a importância do trabalho de Derrida em poucas palavras, principalmente pelo fato de seu legado ser muito extenso: foram 80 livros publicados em vida, muitos seminários, artigos e tantos outros textos que são descobertos, estudados e reinterpretados até hoje. Não só pela comunidade acadêmica, mas também pelo público em geral, porque, apesar de ter textos muito técnicos e complexos, Derrida também escreveu sobre conceitos cotidianos como perdão, hospitalidade, entre outros. Espero sinceramente que, por meio do meu livro, as pessoas possam entrar facilmente neste mundo intelectual tão interessante e descobrir como os caminhos que Derrida percorreu e as escolhas que fez em vida – da juventude na Argélia à vida na França e o sucesso mundial – contribuíram para que ele se tornasse o grande pensador que foi.
– Como essa influência da vida pessoal aparece no trabalho de Derrida?
– Muitos pensam que basta ler o que um pensador escreveu para compreendê-lo, mas acredito que, apesar de não explicar conceitos, uma biografia é sempre multiconectada com o trabalho de um autor. No caso de Derrida, por exemplo, o conceito de identidade é muito complexo e tem raízes em sua experiência de vida. Ele era judeu, argeliano, francês, internacional, e tentou, durante toda a vida, compreender e incorporar todos estes aspectos. Isso teve uma influência determinante em seu modo de pensar e nos conceitos de estrangeiro, de outro, na concepção de hospitalidade, perdão e segredo, tudo isso tem uma conexão íntima com peculiaridades de sua vida. A guerra colonial entre a França e a Argélia também teve um impacto muito profundo em sua vida, e isso influenciou todo o seu pensamento político futuro e está refletido em seus textos sobre a África do Sul dos tempos de Nelson Mandela, os conflitos entre Israel e Palestina, todos eles têm uma raiz política fundamentada neste primeiro trauma da guerra franco-argelina.
– Em entrevistas anteriores, você disse que não teve a pretensão de discutir filosofia no livro. Qual foi seu foco ao escrever?
– Eu discuto a filosofia como um mote para a elaboração dos livros e do ponto de vista da recepção destes trabalhos, mas a biografia não é, de forma alguma, uma introdução técnica à filosofia derradiana e, de certa forma, não é uma biografia intelectual. Quando se fala em biografia intelectual, muitas vezes infância, família, dinheiro, amizade e amor são considerados irrelevantes, e o foco recai somente sobre o legado intelectual do autor. Acredito – e Derrida também defende isso – que todas estas dimensões são parte fundamental da história de um homem e daquilo que ele pensa e escreve. Tentei dar esta multidimensionalidade ao livro, mas também fiz questão que ele fosse uma boa história para se ler. Com certeza, outras pessoas escreveriam com mais propriedade sobre a filosofia de Derrida, mas dificilmente um filósofo escreveria uma biografia de verdade. Quis fazer o retrato de um grande filósofo e um grande homem de seu tempo, uma história real, porque é isso que sou, um contador de histórias.
– Sob que ponto de vista Derrida tratava a ideia de desconstrução, seu conceito mais difundido?
– É difícil explicar sucintamente, e Derrida certamente não o faria (risos). Em primeiro lugar, a desconstrução extrapola a filosofia, podendo ser aplicada em questões de direito, estéticas, éticas e infinitas outras. É como se disséssemos vamos pegar estas ideias generalizadas, aceitas consensualmente por todos, e observá-las em em suas origens, ver como elas foram construídas. Conhecendo a base de um pensamento, podemos decidir o que desejamos manter da visão consensual e o que desejamos reformular quando interpretamos. Não é, como muitos pensam, uma ideia de destruição, algo negativo. Muitos pensam que Derrida era niilista, que queria sair destruindo outros conhecimentos (risos). É um processo múltiplo, de crítica, interpretação, reinterpretação e também de absorção de uma ideia original.
– É um conceito muito ligado à alteridade, não é?
– Exato. A ideia de alteridade é muito importante na obra de Derrida. Para ele, o outro está dentro de você mesmo, você também é o outro. Quando fala de perdão, por exemplo, ele mostra que você ao mesmo tempo que espera ser perdoado, está concedendo uma espécie de perdão a alguém, de certa forma. A questão do eu, o outro e o outro dentro de mim é central à filosofia ocidental, e a questão não é quem está falando a verdade, mas como podemos olhar as situações de maneiras diferenciadas, de forma a suscitar mais perguntas. Os grandes filósofos não são os que fornecem mais respostas, mas os que incentivam novos olhares, levando a outros questionamentos.
– Você acha que estas interpretações erradas da filosofia derradiana têm a ver com as traduções?
– Certamente. Derrida escreveu dentro da língua francesa, com muitas piadas características do idioma e frases peculiares, palavras que ele inventou com base no francês, e, quando se traduz isso, é difícil conseguir o mesmo efeito interpretativo da língua original. Não é tão difícil para traduções em línguas latinas, como português, italiano e espanhol, acho que se perde muito pouco quando o tradutor é bom. Mas quando se trata de línguas como chinês e japonês, fico pensando: Como eles sentem Derrida? Será que eles, de fato, o entendem?. Porque há conceitos muito específicos, e a matriz linguística deles é muito diferente da nossa.
– Como biógrafo, pesquisador e alguém que conviveu com Derrida, o que mais chamou atenção sobre sua vida?
– O que mais me fascinou foi perceber que alguns elementos de sua vida e de sua personalidade são muito distintos de seu pensamento filosófico. Muitas vezes ele tinha um posicionamento tradicionalista, até meio ‘machão’, ao passo que sua filosofia estava transformando mentes de tantas pessoas do mundo inteiro. Sua filosofia era complicada e muitas vezes difícil de compreender, mas seu filme preferido era a trilogia de O poderoso chefão, o que é um clichê! (risos). Ele também foi sempre muito interessado em esportes e chegou a cogitar a carreira profissional no futebol, algo muito inusitado para um pensador. Mas se pensarmos com cuidado, uma partida de futebol também exige raciocínio diferenciado, um olhar sobre o outro, então isso pode ter tido certa influência em seus trabalhos. Havia muitos paradoxos entre sua vida e sua obra, mas isso só fez dele um personagem mais rico para mim, como biógrafo.









