Revelações do corpo
O corpo abre-se, abraça, entrega-se e, sobretudo, revela-se nas esculturas de Margarita Farré. A artista plástica de origem espanhola tem a figura humana como principal tema de seu trabalho, com obras em que as emoções se exteriorizam em posturas e contornos volumosos. A partir de quinta, os juiz-foranos poderão conferir essa síntese na exposição "A escultura de Margarita Farré", aberta no Espaço Cultural Correios. A retrospectiva reúne 16 peças da artista, em um recorte que parte de suas primeiras experiências, em 1969, a criações mais atuais. "Ponho tudo o que sinto nessas esculturas, mas tento fazer com que elas sempre passem coisas boas ao espectador", comenta a artista.
A seleção da mostra toma como base o livro homônimo, publicado em 2010, que resgata toda a trajetória de Margarita, incluindo a história de sua vinda para o Brasil. Nascida em Barcelona, a artista tentou vir com os pais para o Brasil na década de 1950, mas foi impedida pelo governo ditatorial de Franco. Como era jovem, foi recrutada pelo Serviço Social da Espanha e obrigada a trabalhar, costurando roupas para crianças e cuidando de idosos.
Oficialmente, a carreira de Margarita tem início nos anos 1960, quando já estava instalada em São Paulo e casada. Nessa fase, as esculturas são de temática abstrata, como "Circunvolução" (1970). A partir de 1974, começou uma fase figurativa, com trabalhos em bronze polido. A maior parte das obras que compõem a exposição em Juiz de Fora, contudo, é do ciclo que se inicia no final da década de 1980, quando Margarita troca o brilho do metal por pátina. Esse é o caso de "Cheia de vida" (1990) e "Decisão por pênalti" (1994).
A produtora da mostra, Claudia Lopes, chama atenção para a posição privilegiada que a artista confere à figura feminina. De fato, as esculturas de Margarita destacam contornos de mulheres sozinhas ou em grupo. Nesse contexto, personagens masculinos aparecem em composições coletivas ou em dupla com uma parceira, mas jamais sozinhos.
A ligação entre a exposição no Espaço Cultural Correios e livro "A escultura de Margarita Farré", ocorre também na expografia elaborada para a mostra. O ambiente foi preparado em tons de cinza para que as peças participantes se destaquem sob o foco de luz. A única exceção a essa neutralidade ocorre logo na entrada da galeria, onde o texto do curador e autor do livro, Enock Sacramento, aparece sob um fundo laranja. Ele, aliás, acompanha a escultora em um tour para convidados na quarta à noite.
Além das esculturas, Margarita também se dedica à pintura abstrata. Segundo ela, entretanto, essa segunda modalidade surge como uma forma de descanso da difícil tarefa de esculpir. A empreitada torna-se ainda mais desgastante, uma vez que a artista afirma não poupar esforços para alcançar o resultado desejado. É o caso das peças com mais de quatro metros de altura que a escultora já realizou. "Esse é um trabalho muito pesado, quase masculino", avalia.
A paixão pelo ofício que desenvolve está evidente na rotina da artista. Ela criou um segundo ateliê, em sua casa de veraneio no litoral paulista, para poder continuar trabalhando nos finais de semana com a família. Foi de lá que conversou com a Tribuna na tarde de ontem. "Todo mundo diz que meu trabalho reflete o que sou. Acho que é bem por aí, porque ponho toda a minha força no que faço", sintetiza.
A ESCULTURA DE MARGARITA FARRÉ
Abertura quinta. Visitação de segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 14h. Até 14 de janeiro
Espaço Cultural Correios
(Rua Marechal Deodoro 470)









