Entre samba, choro e maracatu
Entre o caminho mais longo e o mais curto, Gabi Buarque fica com a distância que oferece a melhor inspiração. E entre o samba e o choro, a cantora e compositora, que também atua como integrante do grupo Mulheres de Chico, preferiu reunir esses e outros ritmos genuinamente nacionais para lançar seu projeto de estreia, Deixo-me acontecer, lançado no Rio na última semana pelo selo Filet Com Fritas. Convidada a mostrar no Mezcla (amanhã) e no Bacco (sábado) as dez faixas do CD, entre elas, composições próprias como Vento e Roda de coco, Gabi será recebida pelo cantor e compositor Roger Resende, com quem, há algumas semanas vem mantendo contato por e-mail. Optamos por uma seleção de sambas conhecidos e outros nem tantos para este encontro. Vamos de roda de coco e outras dançantes para combinar com o estilo do Mezcla e alguma coisa do lado B do samba para o Bacco, adianta, antes de comentar a sequência presente no disco.
Esse conjunto de músicas foi escolhido dentro de um todo, a partir de 2007, quando compus mais. Quis um pouco de cada coisa, que é o modo como vem a composição para mim. Não se trata só de samba ou choro, queria mostrar que, do meu jeito geminiana, tenho influências das rodas de coco de Santa Teresa, do (grupo) Rio Maracatu, que adoro, e do choro da Escola Portátil na Urca, onde comecei a tocar cavaquinho e sempre ouvi muita música brasileira, ressalta a carioca, referindo-se a influências como Aracy de Almeida, Cyro Monteiro e Joyce.
No CD Deixo-me acontecer, a letra de Sofro sim é uma resposta a uma crônica do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, publicada no jornal O Globo. Algumas das faixas contam com seu cavaquinho para acompanhar outras levadas, como Eu sei e Mulato do samba. Essa história do cavaco de levada eu aprendi com a (cavaquinista e compositora) Luciana Rabello, que me ensinou a tocar samba, choro, maxixe e tango brasileiro sem ser solo, detalha. Passei a usar o cavaquinho para compor também, completa.
Cartão de visitas
Canções como Prosa em lá (com Kalu Coelho) e Canto de breu (com Marcelo Noronha) atestam a facilidade de Gabi Buarque com as parcerias, tão comuns entre a nova geração de compositoras do circuito. Maranduva, de Marcelo Noronha e João Sholl, é um retrato sonoro da riqueza do maracatu brazuca, muito – como ela reconhece – graças ao arranjo do parceiro musical Miguel Martins, responsável ainda pelos solos de cavaquinho e violão do disco.
Além dele, Rodrigo Ferreira (baixo acústico), Joana Queiroz (clarinete), Ana Carolina D’Ávilla (flauta), Kalu Coelho (violão) e Helbe Machado (bateria) entraram no estúdio com Gabi. No princípio, com o Filet Com Fritas nos dando todo a infraestrutura, o processo de criação foi bastante livre. Miguel tinhas as ideias, e a gente tocava. Mas, com quase tudo pronto, o CD acabou tendendo para um trabalho independente. A gravadora não estava mais se autossustentando, conta.
Diante do desafio da independência e das necessidades financeiras que apareceriam para concluir mixagem e masterização do álbum, Gabi Buarque foi agraciada pelo destino. Recebi do (ilustrador) Mello Menezes a capa do projeto como presente, ela diz, sobre a ilustração do artista que assinou projetos de ninguém menos que Pixinguinha, Aldir Blanc e João Bosco.
Para quem a desistência pareceria o caminho mais curto, esse e outros encontros serviram de deixa para que ela tivesse a certeza de qual rumo tomar. Sempre digo que é melhor seguir de ônibus pela estrada mais longa pois há imagens para contemplar. Com esse disco, estou revendo muitos desses conceitos, principalmente a forma como o público alimenta nossa admiração pela música cada vez mais brasileira.
GABRIELA BUARQUE
(com Roger Resende)
Amanhã, às 22h
Mezcla
(Rua Benjamin Constant 720).
3083-2351
Sábado, às 21h
Bacco
(Av. Independência 1.850 – São Mateus). 3249-1860









