Rodeando a palavra
Vou burilando meu existir no mundo através da palavra escrita, e com ela teço o paciente serviço do artesão, que modela, amplia, corta, altera, modifica até que fique satisfeito com o que está sendo produzido. É espanto e exercício, e estas duas coisas funcionam bem comigo. O café é apenas a desculpa para o encontro. O que existe é uma fome de poesia, prossegue a refletir Maria Helena Sleutjes, coordenadora e fundadora do Café com Poesia (e Arte). A vida, além de muito veloz, anda muito individualizada. Você tem muitos amigos, mas quase sempre virtuais. Daí o presencial ser tão indispensável às necessidades interiores. A busca por algo emocional me parece ser uma tendência dos nossos tempos, divaga a poeta, professora e escritora, na tentativa de encontrar razões para o gosto juiz-forano pelas reuniões que priorizam a palavra, que libertam os versos.
O Café com Poesia (e Arte) é apenas um dos grupos que se encontram frequentemente na cidade para debater a arte literária. Neste sábado, a partir das 16h, os jardins do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) recebem o grupo – que nasceu dessa necessidade de estar com o outro – para lembrar Carlos Drummond de Andrade. Estamos em Minas. Não há como não falar do nosso poeta ‘maior’, justifica Maria Helena. Drummond nos jardins do Mamm tem organização da poeta Lázara Papandrea e conta ainda com a participação de Robson Papandrea e Marcos Marinho, na leitura e interpretação de peças conhecidas – e outras nem tanto – do poeta de Itabira.
Contando no seu início, em 2009, com três ou quatro pessoas, os encontros para o café foram recebendo outros poetas, estudiosos, interessados, juiz-foranos e de outras cidade. Hoje, o núcleo do evento já conta com 25 pessoas, número que se amplia nos encontros como o deste sábado, aberto à comunidade. O que importa não é ter um núcleo grande, mas reunir pessoas que queiram compartilhar boas experiências, que tenham afinidade literária e artística, completa.
A Tiago Adão Lara, coordenador do Café Filosófico ao lado de Maria Helena Falcão Vasconcellos, parece que as tensões da humanidade acabam por conduzi-la às artes. É preciso sobreviver, no sentido rico da palavra. Não esmorecer. E, na hora do apuro, nos voltamos às filosofias, às ciências, às artes, avalia. O grupo completa dez anos anos de atividades, iniciadas dos contornos filosóficos acadêmicos, neste mês. De 15 a 50 pessoas comparecem nas reuniões do núcleo. No último encontro, o grupo debateu o preconceito e os limites entre a insanidade e a arte no Brasil, a partir da obra de Arthur Bispo do Rosário, com coro de mais de 40 participantes.
Ambiente propício
Juiz de Fora tem um lastro histórico que torna o terreno da poesia muito propício. Assim como na literatura, existe tradição na pintura, na arquitetura. A arte se manifesta de várias maneiras, encontra berço para se realizar, o que é muito sadio, lembra Tiago Adão Lara. A opinião é compartilhada por Maria Helena Sleutjes, que vê o ambiente da cidade como extramente favorável à criação literária. Sempre existiram pessoas interessadas em escrever, estudar.
Sem o Espaço Mezcla, local que acolhia alguns desses encontros, o Café Filosófico teve sua última edição realizada no Museu do Crédito Real. Os grupos muitas vezes se veem carentes de lugares para se reunir, pois alugar um espaço é bastante inviável, acrescenta Lara, destacando a necessidade de uma política mais atenta à criação e à disponibilização de espaços onde diferentes manifestações culturais possam se realizar.
Existem alguns espaços, embora estes tradicionalmente não sejam ocupados por determinados encontros, acredita a poeta Laura Assis, integrante do Eco Performances Poéticas, que nasceu dentro do Café Filosófico, em 2008, e que também acabou desalojado com o fechamento do Mezcla. Nossa intenção é descobrir esses lugares e levar a poesia até eles, propõe Laura, citando o Onze Bar e a Livraria Quarup como novos locais que vêm abrindo suas portas a eventos diversos.
Para Laura, a segmentação de vertentes artísticas não é vista como algo positivo. Quanto mais integrarmos diferentes artes, melhor para todo mundo: para os donos dos espaços, para o público e também para o artista, para o escritor.
Dinamismo e interatividade
Ainda que não seja possível precisar se o interesse pela arte poética tenha se intensificado na cidade, os grupos percebem que a quantidade de frequentadores dos encontros vem crescendo nos últimos tempos. Com as redes sociais, mais pessoas ficam sabendo e comentam sobre os eventos, constata Laura.
Outra possível tendência que dá cara nova aos saraus contemporâneos é justamente evitar o uso do termo sarau. Desde o início do Eco, procuramos nos desvincular do termo, que acaba remetendo a algo antigo, parado, explica Laura. Ao contrário, o grupo propõe encontros sempre dinâmicos, com participação da plateia, trilha sonora, discotecagem. O microfone aberto, momento reservado à participação de qualquer pessoa presente no encontro, corrobora ainda mais a proposta experimental e interativa. Já aconteceram situações muito engraçadas, participaram pessoas que pareciam que nunca iriam largar o microfone, por exemplo, ri.
Descentralizar a organização dos encontros é outra estratégia dinâmica adotada pelo Café com Poesia (e Arte). Cada um pode se debruçar sobre o tema de sua preferência, compartilhar o que julgar válido, sempre de forma interativa, cita Maria Helena Sleutjes. A ideia é justamente não ser uma palestra, mas uma provocação à reflexão, acrescenta Tiago Adão Lara. Muito se fala que filosofar é abstrato. Mas você parte do real, recorre às possibilidades da mente, ao abstrato, para pensar e retornar ao concreto.









