Para rir e se identificar
"Sentia que faltava alguma coisa, um diferencial que só havia encontrado como ator e autor em ‘Lugar de mulher’ e como espectador na peça ‘A partilha’, de Miguel Falabella. Um texto que unisse humor e emoção, que contasse uma história com personagens reais e humanos." Foi dessa maneira que o ator e diretor Cláudio Ramos justificou o seu desejo de montar o espetáculo "O filho da mãe", que cumpre curta temporada neste sábado, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Pró-Música. "Ele é tão bem escrito, a trama é tão bem elaborada, que seria um crime mexer", ressalta Cláudio. Na montagem, o intérprete acrescenta a sua galeria de papeis mais um personagem feminino. "Adoro fazer mulheres, pois têm mais conteúdo, têm mais emoção. É sempre um desafio conseguir passar a delicadeza de uma mulher, ser verdadeiro, ser sutil", acredita.
Valentina é uma publicitária bem-sucedida e mãe superprotetora. Sua vida começa a tomar novo rumo quando o filho Fernando, interpretado por Rodrigo Bering, decide estudar cinema em Nova York com a ajuda financeira do pai, seu ex-marido por quem ela ainda é apaixonada após 15 anos de separação. A vida real é intercalada com flashbacks, levando a plateia a conhecer a relação construída entre mãe e filho em quatro momentos distintos. Tudo começa quando, sentada assistindo a um filme de Tom Hanks enquanto se recupera de uma cirurgia, a estagnação a leva a infindáveis lamentações.
"Todo mundo tem mãe. Dessa forma, ao ver a peça, a pessoa vai rir e se identificar. Vista com o olhar de quem escreve, essa relação é muito teatral. É dramática, é hilariante, delicada, lúdica, forte, como toda relação de amor deve ser", comenta a autora do texto Regiana Antonini, que, na TV Globo, já atuou nas novelas "Lua cheia de amor", Salsa e merengue" e "Pecado capital", além de ter assinado roteiros para os humorísticos "Zorra total" e "Sai de baixo" e para o programa "Você decide". "O agravante é que o amor é incondicional. Mostra que uma mãe é capaz de fazer qualquer coisa pelo filho. É exatamente esse algo que não se explica, esse amor infinito, que tentei levar para o papel. Já tive uma mãe italiana, que me ensinou quase tudo nessa vida. Quando me lembro dela, começo a rir, pois ela era Valentina ao cubo. Também sou e acredito que a maioria seja", justifica.
É uma comédia atemporal, universal e não se resume a narrar a história do filho da mãe, conforme defende Regiana. "É o tempo que passa rápido demais, é o ex-marido, que também passou rápido demais pela vida dessa mulher, o próprio filho que também cresceu rápido demais, o cirurgião plástico que colocou o fio de ouro no seu rosto, deixando-a sem poder rir, nem chorar, nem fazer xixi, até o Tom Hanks, que a faz chorar todas as vezes que assiste a um filme com ele."
No palco, um cenário realista, segundo Cláudio Ramos. Porta, janela, cortina com bandô, quadros, poltrona em couro, abajur, luminária sobre a mesa do café e tapete, entre outros objetos, compõem o apartamento onde se passa a trama. "Optamos por uma ambientação que lembrasse um espaço bem decorado. Com relação ao figurino, pesquisamos na internet o que uma publicitária de 47 anos na ativa usaria", diz o diretor. Ele também comenta que, entre ensaios quatro vezes por semana, de quatro a cinco horas por dia, e produção, quatro meses foram suficientes para colocar o espetáculo de pé.
Texto criado para o mundo
Antes de Cláudio Ramos e Rodrigo Bering, Valentina e Fernando só tinham sido vividos no palco pela própria Regiana e pelo ator Pedro Nercessian, com direção de João Camargo, no Rio de Janeiro, e pelos atores de São Paulo Eduardo Martini e Bruno Lopes. "O texto é jovem. Nasceu em 2008. Meus textos não são mais meus. Depois que a gente cria, eles seguem por si mesmos. São como nossos filhos: são do mundo", assevera Regiana. Ela ainda conta que, preocupada com a qualidade do que é apresentado, recorreu à intuição e ao levantamento de informações. "Não deixo meus filhos nas mãos de qualquer pessoa. Por isso, procuro saber quem é o ator que vai estar em cena e quem é o diretor", diz. "Mas, ao mesmo tempo, quero somar e, por isso, tenho a generosidade da confiança, o que é um exercício diário. Na TV, aprendi a me desapegar um pouco do que escrevo. O autor que fica estressado com isso não pode ser montado no Brasil."
O FILHO DA MÃE
Hoje, às 21h, e amanhã, às 19h
Teatro Pró-Música
(Avenida Rio Branco 2.329 – Centro)
Fotos em Cultura/Renata Delage/Tom 1 ou Tom 2









