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Pela tela, pela janela


Por JÚLIA PESSÔA

18/06/2013 às 07h00

Diante das telas cada vez maiores das salas de estar, outras pequenas vêm ganhando espaço na relação do público com a cultura. Assistimos à TV conectados a smartphones, tablets e computadores, criticando, elogiando, reproduzindo e reinterpretando o que é veiculado. Da mesma forma, vivenciamos shows, performances e eventos culturais pela resolução dos pixels da câmera que trazemos no bolso, seja ela desenvolvida especificamente para o registro de fotos e vídeos ou mais um recurso de um telefone em que as chamadas quase chegam a ser um artifício obsoleto. Como a Adriana Calcanhotto da consagrada canção "Esquadros", nunca estivemos tão próximos de ver "tudo enquadrado".

Para o designer gráfico e DJ Cléber "Kureb" Horta, os aparatos tecnológicos facilitaram o acesso a diversos bens culturais, como música, filmes, artes visuais e design, enfim, "tudo", sintetiza ele. Além de garimpar achados com o auxílio da tecnologia, Kureb também costuma registrar seus interesses pelo celular, algo que transformou sua relação "ao vivo" com a cultura. "O que me motiva é captar uma parte do momento. Estive recentemente em uma apresentação do Nicholas Jaar em São Paulo e, como tenho nele um dos melhores do mundo em música eletrônica, gravei alguns minutos para ver depois com mais atenção e detalhe. No final, acaba sendo bem didático, sempre aprendo técnicas e coisas interessantes."

 

Como Kureb, a assessora de imprensa Nina Scafutto teve sua vivência cultural modificada pela tecnologia."Carrego cultura comigo através do meu telefone. É simples, fácil, relativamente barato e contribui para que eu fique 24h conectada, sabendo tudo o que acontece, e sempre por dentro de todas as novidades do mundo do entretenimento."

Ligada em música, a juiz-forana, hoje moradora de São Paulo, destaca o bom senso como fundamental para que o desejo de eternizar um show não atrapalhe a vivência do momento- para outras pessoas e para si próprio. "Geralmente, registro minhas canções favoritas. A pessoa que grava o show inteiro sem ganhar nada por isso deixa de curtir o espetáculo, só para depois tirar onda com os amigos nas redes sociais."

Na visão de Marta Pinheiro, professora da linha de Estética, Redes e Tecnocultura do mestrado em comunicação da UFJF, esta multiplicação de gadgets (dispositivos tecnológicos) em ambientes e atividades culturais vem de um desejo crescente de participação do público, em vez de uma posição meramente contemplativa. "Pouco importa o que acontece, a não ser que se possa ser protagonista deste acontecimento-espetáculo. Para uns, o resultado dessas transformações é que hoje cada vez mais as pessoas se tornam ensimesmadas em seus próprios mundos e em seus próprios cantos da sereia. Já para outros, nunca se viveu um tempo como agora, quando tudo pode ser apropriado por todos, e, assim, novos mundos possíveis podem ser inventados."

 

 

Despertando a tagarelice

Conectado como a irmã Nina, o estudante Enrico Scafutto é assíduo em hábito comum da era da cultura mediada por gadgets: o de produzir conteúdo sobre o que se consome. Como ele, milhões de usuários assumem o papel de resenhistas em tempo real do que assistem, ouvem e frequentam, postando suas impressões em redes sociais diversas – sobretudo o Facebook e o Twitter.

"É bom para ver que existem pessoas com os mesmos gostos que você. Nem sempre há amigos no seu cotidiano com quem possa comentar sobre deus programas preferidos, ou espaço para dar essas opiniões para um número maior de pessoas", diz ele, que dá seus pitacos na rede sobre seriados como ‘Game of Thrones’ e ‘American horror story’, além de também premiações, como o Oscar e o MTV Movie Awards.

A professora Marta Pinheiro observa que este espectador participativo é resultado de uma dissolução de fronteiras entre produtores e consumidores de cultura, muito facilitada pelos recursos tecnológicos da atualidade. "Nesta aproximação total, o crítico e o expert são agora todos nós. Nada é intocável. Tudo e todos são, na verdade, meios para uma conexão generalizada: a novela, a exposição, o game, emissores, receptores etc. Eles estão lá não para provocar um intervalo, uma suspensão, traços que caracterizavam a experiência estética ou cultural até então. Eles existem para despertar a nossa tagarelice, nossa participação, nossa performance, nosso envolvimento."

Como em qualquer relação humana – mediada ou não -, o bom uso das telas e janelas no consumo coletivo de cultura requer cuidados. "Pode tudo nos comentários, menos soltar o famoso ‘spoiler’, ficar contando o que aconteceu nos últimos episódios, pois nem todo mundo acompanha em tempo real as séries. O mesmo vale para transmissões de shows e eventos em geral. Há muitas maneiras de expressar opiniões sem relatar exatamente o que se assistiu, ouviu ou presenciou", opina Nina.

 

 

 

‘Uma sala cheia de gente animada’

A possibilidade de criticar, elogiar, enfim, participar da discussão a respeito dos produtos da cultura tem, inclusive, provocado uma reinterpretação do consumo desses bens. Atualmente, há comunidades e perfis nas redes dedicados exclusivamente a comentar o que se passa na telinha, na telona, nos palcos e nas páginas de livros, jornais e revistas.

É o caso da conta @mordomoeugenio no Twitter, que conquistou quase oito mil seguidores com comentários – na maioria das vezes cômicos – sobre novelas, programas de TV, arte e entretenimento em geral. "Ler opiniões em tempo real é um termômetro interessante e estimulante, principalmente sobre programas muito assistidos e comentados. É como ver TV numa sala cheia de gente animada, só que sem a barulheira de todos falando ao mesmo tempo. Voltei a acompanhar programas de TV após passar a utilizar esta conta no Twitter", conta, por e-mail, e preferindo não se identificar, o administrador do perfil cujo nome deriva mordomo Eugênio da maléfica Odete Roitman de "Vale tudo".

Para o criador da conta, a relação entre telespectador e programação está sendo redefinida a partir desta possibilidade de assistir à TV fazendo uso de mais uma tela, a que permite expressão de opiniões via redes sociais. "Às vezes você percebe pelos comentários dos outros que não está sozinho em achar o programa X uma porcaria, ou o programa Y uma maravilha. Frequentemente, pode reavaliar sua opinião ao ouvir idéias contrárias de pessoas que você respeita. É saudável, e as emissoras devem ser espertas e perceber que assuntos são pouco explorados na programação ou aqueles que ninguém aguenta mais."