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Canal de vida


Por RENATA DELAGE

20/09/2013 às 07h00

A montagem brasileira de um fenômeno teatral mundial é um marco de "Os monólogos da vagina". A adaptação e direção de Miguel Falabella, há 13 anos, trouxe sensibilidade e dinâmica que encantaram a autora e ativista norte-americana, Eve Ensler. A partir da visão do diretor e ator brasileiro, o espetáculo passou a contar com três atrizes no palco, que dão vida a 12 narrativas originais colhidas pela autora ao redor do mundo e que abordam o complexo universo feminino. A nova versão da montagem brasileira, com Adriana Lessa, Cacau Melo e Gabriela Alves Toulier, que reestreou no último ano em São Paulo, chega a Juiz de Fora neste sábado, às 21h, no Cine-Theatro Central.

Produzida em mais de 150 países e traduzida para 50 idiomas, a obra se propõe a levar ao riso e às lágrimas, alternando depoimentos bem-humorados àqueles que foram capazes de mobilizar campanhas a favor do fim da violência contra as mulheres. "Acredito que a versão brasileira traga uma cor um pouco mais forte, mais vibrante", avalia uma das atrizes da peça, Gabriela Alves Toulier. "O humor, a desenvoltura, a brincadeira são inerentes ao povo brasileiro. E a sensibilidade e o conhecimento do Miguel (Falabella) sobre o universo feminino é capaz de aproximar ainda mais o público", completa.

"A criatividade desta concepção, a proximidade do texto e a abordagem de um tema tão importante e recorrente fazem com que a peça seja um grande sucesso", observa Adriana Lessa. A identificação com a histórias relatadas se faz presente não apenas para o público, mas também para as atrizes. "Tratamos de momentos sempre delicados, como a descoberta do corpo, do prazer, da feminilidade. E não é só tocante às mulheres, mas também aos homens, que estão cercados por elas, seja pela esposa, pela mãe, pela filha", diz Cacau Melo.

Para Charles Ischerwood, do "New York Times", a peça é "provavelmente a mais importante obra de teatro político da última década". O engajamento de Eve Ensler pelo fortalecimento da mulher na sociedade a partir sua sexualidade inspirou a criação do V-Day, movimento feminista global. Muitas celebridades estrelaram esse projeto, como Jane Fonda, Whoopi Goldberg, Glenn Close e Oprah Winfrey. "Há estudos que dizem que um terço das mulheres do planeta já foram ou vão ser violadas de algumas forma, daí ser tão importante levantar e refletir o assunto", destaca Gabriela. "A mulher sente a mesma coisa em qualquer lugar do planeta", pontua Adriana.

 

Ode à mulher

Entre narrativas cômicas e comoventes, o público transita por temas delicados, como a mutilação genital na África ou os casos de estupro na Bósnia – citados pelas atrizes como parte marcante do espetáculo – e ainda por momentos leves, a exemplo da abordagem descontraída da primeira menstruação, do casamento e da velhice. "Eu nunca tinha falado tão abertamente sobre a vagina. Existem muitos tabus debaixo dos panos, que, muitas vezes, nem nós mesmas temos consciência de que estão ali", constata Gabriela.

"Ainda que não sejam propriamente preconceitos ou tabus, são situações, às vezes, distantes da nossa realidade, que eu desconhecia. Sei que há um desconforto da plateia no monólogo da violência contra as mulheres na Bósnia, mas eu me sinto muito confortável interpretando esse depoimento", revela Adriana.

"Há um constrangimento inicial, sim, em falar de certos temas, reprimidos, como a masturbação. Depois, com as informações, essas descobertas passam a ser muito bonitas", diz Cacau. Para Adriana, a vagina é celebrada como um sinônimo de feminilidade. "Falar da vagina pode ser engraçado, mas também pode ser algo poético, trazer um lirismo, ela é um canal de vida. O grande trunfo do espetáculo está em divertir, mas também em informar pela sensibilização. Acredito que as mulheres saiam da peça se sentindo mais fortalecidas, já que foi dada a elas voz", expõe Gabriela.

 

Uma série de atrizes do teatro brasileiro já passou pelo elenco do espetáculo, como Zezé Polessa, Tânia Alves, Cláudia Rodrigues, Mara Manzan, Bia Nunes, Cissa Guimarães, Lúcia Veríssimo, Elizângela, Totia Meirelles, Fafy Siqueira, Chris Couto e Maximiliana Reis. Na opinião de Cacau, é muito interessante o espetáculo estar sempre se moldando à atuação das novas atrizes. "Ele continua com suas concepções, mas sempre com um frescor. Cada uma traz sua leitura, seu vigor à montagem", avalia. "A respiração, o tempo são bem peculiares, bem pessoais. Fazer parte dessa história é fantástico", acrescenta Adriana.

A sucessão é ainda mais representativa a Gabriela, já que a atriz interpreta as mesmas personagens que sua mãe, Tânia Alves, desempenhou anos antes. "É uma honra. Eu não acredito em coincidências. Esses papéis trazem um simbolismo muito grande para mim, porque, mesmo não sendo a sucessora direta, pois outras atrizes passaram pelos papéis nesse tempo, é como se ela estivesse me passando o bastão", conta.

Depois da pausa para a reelaboração da montagem, que estreou no último ano, novos figurinos, cenário mais leve e mais moderno, além da utilização da tecnologias de projeções, passaram a integrar o espetáculo. "Poder fazer uso dessas ferramentas facilitadoras é sempre muito bom", ressalta Adriana. Integrante também do elenco em 2008, Cacau vê como positivas as novas escolhas. "Mais interessante, mais bonito, com referências mais modernas", compara.

O importante, na visão de Gabriela, é que as mudanças estejam sempre a serviço do espetáculo e de suas concepções. "Ele se moderniza, mas mantém sua simplicidade. O que é mais importante é o que é dito. As atrizes estão ali a serviço dessa narrativa", finaliza.

 

OS MONÓLOGOS DA VAGINA

 

Sábado, às 21h

 

Cine-Theatro Central

3215-1400