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Cubanos esperam economia melhor


Por Tribuna

25/12/2014 Ă s 07h00- Atualizada 06/01/2015 Ă s 18h45

Maikel Furones, professor na UFJF

Yuleimy Cabrera Hernandez, médica cubana em JF

Maikel Furones, professor na UFJF

Yuleimy Cabrera Hernandez, médica cubana em JF
Yuleimy Cabrera Hernandez, médica cubana em JF

Algo que parecia impensável nas Ăşltimas dĂ©cadas, a reaproximação diplomática entre Estados Unidos e Cuba, que mantinham relações cortadas desde 1961, aconteceu de forma pacĂ­fica. O realinhamento foi sacramentado por anĂşncios feitos no Ăşltimo dia 17 pelos presidentes Barack Obama, norte-americano, e RaĂşl Castro, cubano. A decisĂŁo histĂłrica ocorreu apĂłs entendimentos para troca de prisioneiros entre os dois paĂ­ses, quando Obama garantiu que os EUA estavam prontos para reabrir a embaixada em solo cubano. A expectativa agora Ă© de que o fim do distanciamento entre as duas nações culmine na extinção do “el bloqueo”, como Ă© conhecido o embargo econĂ´mico imposto pelos americanos em 1962 e restringe as relações comerciais de parte a parte, fustigando a economia de Cuba. A retomada das relações e as perspectivas de um melhor cenário para a ilha, principalmente no aspecto econĂ´mico, foi comemorada pelos cubanos que residem em Juiz de Fora.

Para a mĂ©dica cubana Yuleimy Cabrera Hernandez, 33 anos, que atua em Juiz de Fora pelo programa “Mais MĂ©dicos”, este Ă© um momento histĂłrico. A reaproximação marca o primeiro passo para boas mudanças para seu paĂ­s de origem. “Vejo esta decisĂŁo de forma muito positiva, pois o relacionamento de intercâmbio Ă© importante para todos os paĂ­ses. Espero que isso aconteça de forma que beneficie ambas as partes, que nĂŁo seja algo unilateral e uma ingerĂŞncia do poder norte-americano no nosso paĂ­s”, pondera. Para Cuba, esta pode ser uma oportunidade de melhorias econĂ´micas, polĂ­ticas e sociais.”

Nascida na provĂ­ncia de Granma, e há menos de um ano residindo no Brasil, Yuleimy destaca que a reaproximação pode trazer uma realidade diferente daquela que ela vivenciou em Cuba. “Vejo como principal mudança social a facilidade de viajar entre os dois paĂ­ses que deverá existir a partir de agora. AtĂ© o momento, o processo para um cubano ir aos Estados Unidos ou um norte-americano ir Ă  Cuba nĂŁo era simples.” Com viagem marcada para o seu paĂ­s no prĂłximo mĂŞs, quando irá visitar os pais, o esposo e a filha de trĂŞs anos, Yuleimy espera poder encontrar algumas mudanças iniciais. “O fim do embargo comercial irá melhorar a economia cubana e trazer impactos positivos rapidamente.”

 

Expectativa por novas oportunidades na ilha

A expectativa de um melhor futuro para seu paĂ­s de origem, motivada por uma possĂ­vel suspensĂŁo do embargo econĂ´mico tambĂ©m Ă© compartilhada pelo cubano Maikel Furones, 37 anos, professor do Departamento de FĂ­sica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Nascido na pequena cidade de Yara, ele aposta na alteração das relações comerciais como principal aspecto positivo da reaproximação. “Agora, muitos paĂ­ses que eram impedidos de comercializarem conosco poderĂŁo fazĂŞ-lo. AtĂ© entĂŁo, esses mercados deveriam fazer uma escolha, e os Estado Unidos apareciam, na maioria das vezes, como alternativa mais interessante.”

Comemoração

Há cinco anos em Juiz de Fora, onde reside com a esposa brasileira e os dois filhos, de 10 e 12 anos, ele conta que tenta visitar o paĂ­s de origem pelo menos uma vez por ano. “Mas mesmo sem estar lá, tenho certeza que meu povo está comemorando. Economicamente Ă© uma notĂ­cia muito boa para todos, pois as restrições comerciais eram absurdas.” Ele tambĂ©m ressalta a importância polĂ­tica do que considera um “grande acontecimento”. “É uma oportunidade do mundo perder uma visĂŁo monocromática. Quando se tem dois lados e cada um escolhe o seu, tratamos tudo como se fosse ‘preto no branco’. Com a diplomacia de ambas as partes, haverá o respeito mĂştuo sobre as escolhas de cada um.”

O mĂ©dico Lesner Roene, 32 anos, conta que conversou com a famĂ­lia que deixou em Havana. “Lá moram meu pai, minha mĂŁe e meu irmĂŁo. EstĂŁo todos muito contentes. Daqui do Brasil, tambĂ©m comemorei. Os problemas econĂ´micos que meu paĂ­s enfrenta por conta do embargo comercial irĂŁo melhorar”, opina. “Viajarei para Cuba daqui a trĂŞs anos e espero poder ver de perto essas melhorias.”

Conciliar abertura com bem-estar Ă© desafio

Para o cientista polĂ­tico da UFJF, Fernando Perlatto, a reaproximação entre EUA e Cuba irá promover uma modificação na geopolĂ­tica das AmĂ©ricas, que será capaz de produzir impactos econĂ´micos e polĂ­ticos alĂ©m das fronteiras dos dois paĂ­ses. Entretanto, o especialista lembra que a efetiva melhoria na vida dos cubanos passa pelo aprofundamento dos entendimentos. “Ainda há barreiras importantes que precisam ser efetivamente derrubadas, com destaque especial para o embargo econĂ´mico. Esta decisĂŁo Ă© mais difĂ­cil, pois depende da aprovação do Congresso norte-americano, composto por maioria do Partido Republicano, contrária Ă  aproximação com Cuba. Caso o embargo seja derrubado, as mudanças serĂŁo ainda de maior relevância.”

No entendimento de Perlatto, a reaproximação irá descortinar um novo leque de oportunidades para a economia de Cuba, fragilizada por dĂ©cadas de isolamento. “Cuba poderá se beneficiar bastante no curto prazo, sobretudo se a ilha for retirada da lista de nações terroristas. Isso trará novos investimentos e contribuirá para uma maior circulação de capital. AlĂ©m disso, o fluxo de turismo em direção Ă  ilha tende a ampliar bastante, o que beneficiará diretamente um sistema que, minimamente, conseguiu se fortalecer ao longo dos Ăşltimos anos.”

De acordo com o especialista, dicotomicamente, os novos horizontes abertos pelo realinhamento trazem um desafio, e Cuba precisará conciliar o cenário de abertura econĂ´mica e polĂ­tica com a manutenção do sistema de bem-estar construĂ­do na ilha, “que assegura Ă  Cuba condições sociais invejáveis em relação a outros paĂ­ses do mundo”. Perlatto pondera que o fortalecimento da economia cubana poderá, inclusive, ser benĂ©fico para as nações que mantiveram diálogo com a ilha nos Ăşltimos anos. “A conjuntura polĂ­tica aberta pelo novo cenário, sobretudo com a construção do Porto de Mariel, tende a reforçar esses laços polĂ­ticos, beneficiando economicamente o Brasil.”

 

Consolidação de um novo líder mundial

Um nome externo que participou das negociações entre Cuba e EUA, o Papa Francisco parece ainda mais consolidado como grande liderança mundial, extrapolando as fronteiras do Vaticano e da Igreja Católica. A troca de prisioneiros acordada entre as partes, por exemplo, teve participação ativa do argentino. Tanto que, durante o anúncio do realinhamento, o presidente norte-americano Barack Obama agradeceu nominalmente ao religioso. Para Emerson Silveira, doutor e coordenador do curso de Ciência e Religião da UFJF, a maneira como o Papa participou das conversas, aliada a sua personalidade simples, o coloca definitivamente como um potencial mediador de conflitos internacionais.

“O Papa tem uma visĂŁo de mundo muito interessante. Soube deixar de lado guerras culturais como os discursos contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Com isso, pode investir em questões importantes, levantando a bandeira da justiça e da igualdade social, o que Ă© uma velha doutrina da Igreja, muito trabalhada pelo Papa JoĂŁo XIII. Isso acaba por dar dignidade ao Vaticano, ao lado da firme disposição em reformar a CĂşria e sanar problemas internos, reforçando ainda mais sua respeitabilidade internacional e sua capacidade na mediação de conflitos”, avalia Emerson.

O especialista lembra que, Ă  sua maneira, Francisco retoma uma atuação de mediador que já havia sido executada pelo Papa JoĂŁo Paulo II, que se colocava como elemento neutro durante o perĂ­odo de distanciamento entre EUA e a extinta UniĂŁo SoviĂ©tica, principalmente na dĂ©cada de 1980. “Simbolicamente Ă© algo muito grande, pois o Papa Francisco ajudou a colocar um ponto final no Ăşltimo resquĂ­cio da Guerra Fria, assim como o Papa JoĂŁo Paulo já havia atuado como mediador entre partes conflitantes em um passado recente. Isso o consolida ainda mais como um lĂ­der moral e simbĂłlico, já que, a grosso modo, Ă© lĂ­der de uma nação sem ExĂ©rcito, Marinha, Aeronáutica ou poder econĂ´mico.”