‘Retomar a função social da rua’

Guilherme Mendes e Guilherme Tampieri defendem a redução da velocidade dos carros
Deixar o automóvel na garagem e ir de bicicleta para o trabalho pode ser ainda uma ideia impossível para muitos. Ou, ainda, ver os filhos pedalando pelas principais ruas do Centro pode despertar pânico em muitos pais. Mas a mobilização de ciclistas tenta mudar esta realidade. Espelhados em modelos internacionais, de políticas públicas voltadas para o compartilhamento das vias, grupos como União dos Ciclistas do Brasil (UCB) e Mobilicidade-JF idealizam o uso da rua em sua função social: com respeito entre pessoas, veículos, bicicletas e transporte coletivo. A Tribuna recebeu Guilherme Tampieri, da UCB, e Guilherme Mendes, do Mobilicidade, para um bate-papo sobre estes conceitos. Eles atuam respectivamente em Belo Horizonte e Juiz de Fora para desenvolver políticas públicas que integrem os ciclistas e pela implementação de ações de baixo custo pelo Poder Público. Afirmam ser possível criar formas de integrar ciclistas e motociclistas nas vias sem necessariamente partir para a segregação. Um dos exemplos, já consolidado, foi a instalação das ciclorrotas pela Settra, no mês passado, com sinalização vertical e horizontal pelas principais vias do município.
> Redução da velocidade máxima para automóveis
Tampieri relata os exemplos de modelos implantados em Paris e Belo Horizonte para favorecer o uso das bikes: a redução da velocidade máxima para automóveis nas vias. “Ao comparar a massa e a aceleração de um ciclista com a de um automóvel, a força é desigual. A partir do momento em que você torna as velocidades máximas para o automóvel semelhantes às velocidades máximas que uma pessoa consegue atingir de bicicleta, a 20 ou 30km/h, você torna a rua um espaço mais democrático. As pessoas começam a entender que aquele espaço é um lugar seguro para se ocupar e começam a pedalar. É preciso retomar a função social da rua”, defende.
> “Cidade 30” x “Zonas 30”
Segundo o ciclista da UCB, o preço da implantação da redução da velocidade corresponde a 10% do valor do quilômetro de uma ciclovia, o que representa uma política de baixo custo. Ele exemplifica casos como o de Paris, que, ao contrário das zonas 30, onde a velocidade máxima era de 30km/h em determinados trechos, motoristas passarão a ter que trafegar nesta velocidade em toda a cidade até 2020. “Assim se retoma a função original das ruas, que é a circulação tanto de veículos quanto de pessoas”, reforça. Guilherme Tampieri vê com bons olhos a destinação de vias públicas com priorização de bicicletas, criando um novo desenho da via e tornando-as “desconfortáveis” para motoristas.
> Resistências
Apesar de considerar a proposta viável, Tampieri vê dificuldades na aceitação da proposta por parte dos motoristas. “Em grandes eixos, a luta política para diminuir essas velocidades é muito alta, e nossos governantes não estão prontos para comprá-las”, analisa. Nesse caso, ele afirma que se pode pensar na construção de ciclovias ou ciclofaixas, mas com interseções nas ruas que garantam segurança ao ciclista. “O motorista presta atenção ao que está na frente e não ao que está na lateral. Quando ele vê que o ciclista está ali, muitas vezes, é tarde demais.” Guilherme Mendes observa a resistência dos motoristas, principalmente com a nova sinalização das ciclorrotas. “Muitos ciclistas dizem que não vão andar na ciclorrota, porque os carros vão passar por cima. Isso não é um problema da ciclorrota. Fica evidente a velocidade altíssima de motoristas. A fiscalização deve agir para que o ciclista possa andar justamente onde é sinalizado e seguro”, afirma.
> Capacitação para motoristas profissionais
Uma medida considerada gratuita pelo ciclista da UCB é a capacitação de motoristas profissionais. Tampieri relata que um treinamento realizado pelas empresas que incentivem ao cuidado com o ciclista e o pedestre é primordial. “Em Belo Horizonte, temos muito problema com motoristas de ônibus e taxistas e temos conseguido avançar nesse processo: treinar quem treina os motoristas profissionais. Vamos também começar a treinar diretamente os motoristas de ônibus, mostrar a eles como é importante respeitar os ciclistas”, diz. Ele afirma que as maiores críticas por parte dos profissionais se referem à sinalização, mas aponta os riscos que tirar as mãos do guidão podem trazer a quem pedala em vias de asfalto precário. Outra reclamação se dá em relação ao modal transitando na contramão. “Não se pode impedir o ciclista de cortar caminhos pela cidade. É só instalar placas de contramão excetuando bicicletas”, sugere.
Integração de modais
Uma das propostas defendidas pelos ciclistas e que favoreceria o uso da bicicleta seria a integração com outros modais, como coletivos urbanos ou táxis. O presidente do Mobilicidade reforça que taxistas deveriam investir em equipamentos para carregar bicicletas nos seus carros, tornando um diferencial para o serviço. Já sobre os coletivos urbanos, aposta na instalação de racks que permitam carregar o modal no próprio coletivo, iniciativa que inclusive já foi transformada em projeto de lei pelo vereador Antônio Aguiar (PMDB). O projeto foi aprovado pela Câmara no mês passado e aguarda a sanção do prefeito Bruno Siqueira (PMDB). Mendes lembra que é também importante aprimorar a instalação dos bicicletários próximos dos pontos de ônibus, disponibilizando ao ciclista um espaço onde possa deixar a bicicleta.
> Orçamento
Ao analisar a situação de Belo Horizonte, Guilherme Tampieri lamenta que a previsão de recursos em leis orçamentárias não esteja sendo executada. Ele lembra que, em 2013, o valor de R$ 800 mil estava previsto no Plano Plurianual para execução de campanhas ao longo de três anos. No entanto, “nenhum centavo foi executado”. Guilherme Mendes lembra que, em Juiz de Fora, a situação não é diferente, já que não há previsão orçamentária para políticas públicas para ciclistas. No entanto, afirma que há uma mudança na forma de pensar por parte do Poder Público, demonstrada por iniciativas como o projeto “Bem Comum Lazer”, que surgiu da demanda dos ciclistas. “O projeto virou uma política pública, e a gente retomou esse espaço. Não se fechou a Rio Branco, está aberta para todo mundo”, analisa.
> Mito: Juiz de Fora não é para ciclistas
Guilherme Mendes defende que, apesar de áreas íngremes, Juiz de Fora é, sim, uma cidade apta a se transitar de bicicleta. Ele explica que, apesar dos morros, apenas um terço da cidade está situado em uma área totalmente íngreme e 38% representam uma área completamente plana. “Do Parque Halfeld ao Bom Pastor, por exemplo, não é plano, mas a inclinação ali é bem suave. De bicicleta, rende. Mas hoje as bicicletas têm muitas marchas, são elétricas, e outra opção possível é descer e empurrá-la. Contar com o apoio dos ônibus também seria muito importante.”









