Uma Pá de lembranças

Cangaia Blues é outra atração deste sábado

Banda que abriu a primeira edição do Som Aberto, A Pá retorna para apresentação especial

Capivaras de Netuno representa a nova geração para se apresentar na UFJF
Evento que marcou a vida artística e cultural de Juiz de Fora na década de 1970, celebrado até hoje por quem viveu ou ouviu falar dele, o festival Som Aberto volta a acontecer na UFJF, repaginado e com novidades, neste sábado. A iniciativa da Pró-Reitoria de Cultura tem uma programação que promete música, artes plásticas, moda, literatura, dança, yoga, gastronomia e outras atividades na Praça Cívica do campus da UFJF. A parte musical, que pode ser considerada a “alma” do Som Aberto, terá shows de duas bandas escolhidas por meio de edital da instituição, que buscou valorizar nomes que atuam na UFJF, entre alunos, professores e técnicos: Cangaia Blues e Capivara de Netuno. Mas a grande atração será a primeira banda a se apresentar no evento, em 1974: A Pá, que retorna para um show especial com todos os seus 12 integrantes após um hiato de 15 anos de apresentações. A programação ainda inclui a discotecagem de Pedro Paiva, DJ do Vinil é Arte.
A ideia de retomar o festival com seu nome original foi da pró-reitora de cultura Valéria Faria, há cerca de um ano, fruto do desejo de promover no campus um espaço de vivência para aluno e que fosse estendido à comunidade. “É um projeto piloto, que esperamos que seja mensal. O campus da UFJF é um lugar ideal para essa reunião de artes, cultura, poesia. Como a ideia é que seja um resgate do que aconteceu nos anos 70, resolvemos manter o nome e convidar A Pá.”
O combo musical-poético-artístico que durou de 1974 a 1978 foi a âncora do festival em seu início. Há 15 anos sem se apresentar, o grupo subirá à concha acústica com todos os 12 integrantes: todos os irmãos Teixeira (Xico, Domingos, Estevão, Faustino, Henrique, João e Luzia), Márcio Itaboray, Hélio José Barbosa, Carlos Augusto Gomes, Sérgio Evangelista e Márcio Hallack – este, na dependência da possibilidade da presença de um piano no palco.
O repertório, segundo Xico Teixeira, terá desde canções folclóricas até clássicos da MPB no período: “Clube da Esquina”, “Plantador” (Geraldo Vandré), “Agnus Sei” (João Bosco), “Paraná” (Airto Moreira), “Zé do Cão” (Sérgio Ricardo), entre outras. “Tínhamos um show autoral e outro com o cancioneiro popular do Sudeste e Nordeste, e posteriormente com ‘lados B’ de compositores da MPB'”, acrescenta Márcio Itaboray.
Os integrantes do grupo tomaram conhecimento do retorno do Som Aberto há cerca de dois meses. “Foi uma alegria, porque ele foi um movimento cultural muito importante para a cidade. Foi o momento em que universitários e secundaristas começaram a se organizar para enfrentar a ditadura. Foi um momento de muita movimentação política, com os diretórios acadêmicos sendo reabertos. Eu era o presidente do diretório da comunicação social na época, que foi o primeiro a voltar. Todo sábado nos juntávamos ali para poder cantar e falar num momento de reação ao que rolava na época”, lembra Xico.
De acordo com Xico Teixeira, ter a oportunidade de voltar com A Pá no festival que ajudaram a organizar é motivo de orgulho. “Há 42 anos acreditamos que a melhor forma de luta contra a ditadura seria juntar os estudantes num movimento político e cultural como era o Som Aberto, que tinha o espírito também de juntar outras expressões artísticas”, declara. “Lembro que o Antônio José Marques, que hoje é médico, participava abertamente do festival na parte da literatura. O Xanxão e o Biel faziam os cenários para os shows d’A Pá, foi um movimento que mobilizou uma série de grupos.”
Junto ao orgulho de poderem participar desse recomeço, veio um problema: colocar uma dúzia de artistas para ensaiar juntos após tantos anos. “A primeira coisa que nós pensamos foi em como ensaiar esse povo (risos). Praticamente todos nós somos ex-alunos da universidade, sendo que alguns continuam em Juiz de Fora, outros foram para o Rio de Janeiro. Alguns se tornaram músicos profissionais, dando origem a diversos talentos na área cultural, mas também temos médicos, professores, engenheiros, jornalistas”, diz ele. “Já fizemos três ensaios, nesta sexta-feira vamos fazer o ensaio geral e com certeza faremos um espetáculo mararvilhoso no sábado.”
Da escola para a universidade
Autor do livro “Assuntos de vento – Breves histórias da MPB em Juiz de Fora”, no qual o Som Aberto é lembrado, Márcio Itaboray conta que a banda teve seus primeiros passos ainda em 1969, sem o nome que a tornou famosa, em um festival no Colégio de Aplicação João XXIII, uma das instituições mais visadas pela ditadura na cidade. A partir daí, participaram de festivais intercolegiais e adotaram posteriormente o nome A Pá, tirado de um aviso escrito pelo cantor Milton Nascimento: “A pá é essa”.
Em outubro de 1974, com os diretórios acadêmicos da UFJF – proibidos pela ditadura – voltando às atividades, Xico e Márcio foram dois dos principais responsáveis pela realização do primeiro Som Aberto, no anfiteatro do antigo Instituto de Ciências Biológicas (ICGB). A primeira banda a se apresentar? A Pá.
A partir de então, o movimento ganhou força e contou com o apoio dos estudantes secundaristas. O palco era aberto para quem chegasse no sábado de manhã e quisesse mostrar seu trabalho. Na falta de atrações, Itaboray lembra que sua banda estava sempre preparada para tocar. ” O Som Aberto virou o point da molecada, porque poucos cursos tinham aula aos sábados. O Xico era o apresentador, e A Pá, o grupo fixo. Se não tivesse ninguém, a banda tocava. E não tinha inscrição, o palco estava disponível para quem quisesse chegar lá e se apresentar “, conta. Com essa liberdade, artistas novatos, locais e futuros nomes de peso da MPB, como João Bosco, Leci Brandão e Gonzaguinha – este último no Cine-Theatro Central, em 1975 – fizeram shows no festival. Por ali também se apresentaram Cezar Itaboray, Guela Seca, Vértice, Luisinho Lopes, Coisa & Tal, Carlos Carreira e Gardênia Dourada, entre tantos outros.
Outro motivo de orgulho para o grupo é a primeira apresentação deles no Teatro Pró-Música. “Fomos a primeira banda a fazer show de música popular ali, que antes só recebia música clássica”, relembra Xico Teixeira. Nem tudo, porém, foram flores, como salienta Márcio Itaboray. “Tivemos duas músicas censuradas pelo pessoal da ditadura. Mas todo mundo na plateia sabia cantar, então a gente tocava, e a plateia cantava, foi muito emocionante.”
Com seu último show em 1980, A Pá fez apresentações comemorativas desde então, em 1990 e 2001, por ocasião do lançamento do livro de Márcio. Mesmo que cada um tenha seguido caminhos relativamente diferentes, as lembranças e a sensação de relevância continuam firmes e fortes.
Comidinhas e artesanato
Dentro da proposta de interação, a organização do festival abriu espaço para o bazar, com 40 vendedores que confeccionam seus próprios produtos. “Convidamos também o pessoal normalmente ligado à universidade, como a Deborah Lisboa, que tem um trabalho bem interessante com o circo. Haverá aula de capoeira com o Mestre Cuité, de ioga, é uma oportunidade para que eles se reconheçam. As palavras-chaves são reunir e interagir”, destaca Valéria Faria.
Os shows começarão às 17h, mas, desde as 14h, terá food trucks, cantinas da UFJF e opções para quem precisa/deseja uma alimentação sem glúten, oferecida pela A Rara. Haverá quiosques de confecções, brechós, decoração, acessórios, artesanato, papelaria.
A pró-reitora aposta que o caráter contestador e conscientizador de outrora vai se fazer presente neste sábado. “Assim como naquela época, a gente continua com muitas dificuldades, muitas frentes de luta. Temos a luta contra o racismo, temos o feminismo, inclusive o Coletivo Artemísia fará parte da segunda edição, e a arte é importante nesse momento.
SOM ABERTO
Com A Pá, Capivaras de Netuno e
Cangaia Blues
Neste sábado,
a partir das 14h
Praça Cívica
da UFJF









