Mulheres que fazem arte

Fundamental na arte brasileira no início do século XX, Pagu é um dos nomes já homenageados pelo Coletivo

Da produção artística atual, um dos nomes lembrados é o da juiz-forana Lílian Arbex

Diversidade da produção de Lygia Clark é destacada pelo Artemísia
Nós, homens, podemos até dizer que “ser mulher não é fácil”, mas – assim como o inverso também não deixa de ter sua parcela de verdade – jamais saberemos na carne todas as dificuldades, preconceitos e posições de coadjuvante impostos a elas pelo sexo masculino durante os séculos, seja com argumentos sociais, “científicos”, sociais, filosóficos e culturais, entre outros. A História da Arte, então, costuma colocar o sexo feminino em segundo plano, apesar de não faltarem nomes de destaque. E foi para tentar mudar este e outros panoramas que alunas, professores, técnicas e terceirizadas do IAD (Instituto de Artes e Design), da UFJF, criaram o Coletivo Artemísia, que possui uma página no Facebook em que divulgam os nomes de mulheres que realizaram ou realizam atividades de destaque no universo da arte, além de criarem ações na instituição e participarem de outros movimentos sociais.
A principal ação do coletivo é por meio do Facebook, em uma página com cerca de 400 seguidores e mais de 1.200 curtidas. A cada semana, elas destacam dois nomes clássicos ou contemporâneos do universo feminino nas artes, com um pequeno resumo da trajetória de cada uma e links para que se conheça mais sobre a vida e os trabalhos das artistas. Além disso, foi aberto um edital em maio para que as integrantes do IAD pudessem apresentar suas obras para a seleção de uma galeria virtual, o projeto #MulheresNasArtes, e no início do mês foi aberto um outro processo seletivo para nomes brasileiros em geral, que selecionou para divulgação na página os nomes de Ana Lobo, Ludmilla Silva, Fran Silva e o Coletivo Lambe Mais, Oprime Menos. No chamado “mundo real”, uma das ações foi realizada no último dia 1º, dentro do campus da UFJF, com um varal que tinha por objetivo discutir a cultura do estupro, motivada pelo crime cometido contra uma menor de 16 anos em uma comunidade do Rio de Janeiro.
Agindo dentro e fora da instituição
O nome Artemísia foi escolhido em votação on-line. “Além de ser o nome da deusa grega protetora das mulheres (cujo templo era uma das sete maravilhas do mundo antigo), Artemísia também é o nome de uma pintora italiana do período barroco: Artemísia Gentileschi. Foi uma das únicas mulheres a serem mencionadas no ramo da pintura artística do barroco, sendo a primeira a possuir uma posição privilegiada e a primeira mulher a ser aceita na Academia de Belas Artes de Florença. Dedicou-se a temas trágicos em que suas personagens femininas representam papéis de heroínas. Apesar de seu sucesso, a pintora fora vítima de ataque sexual por um dos seus mentores, sendo levada a julgamento, examinada ginecologicamente e torturada para comprovar seu testemunho. Apesar de sua relevância para a história do barroco italiano, Artemísia Gentileschi ainda mal figura entre os grandes títulos sobre história da arte”, explicam as integrantes do coletivo, que para manter o espírito de unidade respondem pelo grupo coletivamente.
Elas organizam suas demandas internas perante a instituição por meio do coletivo, mas que antes da criação do Artemísia já havia um grupo no Facebook em que elas dividiam experiências e escreviam seus relatos. “A decisão de criação de uma organização coletiva veio em meio de novembro do ano passado após diversos ataques machistas sofridos por nós mulheres – assédios tanto por parte dos alunos quanto dos professores -, que levaram a nos unir para organizarmos ações de combate.”
Contra o ‘apagamento’
“Historicamente há uma divergência muito grande entre os papéis do homem e da mulher no campo das artes. A História da Arte Geral possui poucos nomes de mulheres. E não pela não-existência, mas pelo apagamento. São homens falando sobre homens, constituindo a ideia de ‘mestres’. Quantas artistas mulheres você conhece? E quantos homens? As disciplinas acadêmicas perpetuam este fato”, criticam. “Há várias questões em que o feminismo pode atuar em nossa área: a quantidade de mulheres expostas em museus; como as mulheres foram retratadas na arte, principalmente pelo corpo nu; a dificuldade que mulheres enfrentaram para entrar para Academia de Belas Artes; entre outras. Trazer esses nomes é rever a história, dar voz a mulheres artistas.”
Elas frisam, ainda, que o preconceito não é uma prática pontual, mas sim disseminada em níveis variados. “Uma artista pode ser ‘desconhecida’ pelo fato de que o mercado de arte valoriza mais obras de homens do que de mulheres (a uma de nossas integrantes já foi sugerido utilizar um pseudônimo neutro, pois o nome feminino desvalorizaria a obra). Outro exemplo, apontam, vem de uma das escolas de design que marcaram o século XX, a alemã Bauhaus – em que, de acordo com o coletivo, havia mais mulheres matriculadas que homens. “Mas por que não ouvimos falar delas? Porque a elas era confinado quase que exclusivamente a prática da tecelagem; pintura, design e gravura eram departamentos para homens. O próprio diretor (Walter Gropius) dizia que as mulheres só conseguiam pensar em duas dimensões, e os homens, em três, justificando seu sectarismo. É uma relação muito complexa, num campo que historicamente sempre valorizou o trabalho de homens, embora o número de mulheres em faculdades de artes, por exemplo, supere o de homens.”

Mobilização pela web
Mudar uma mentalidade que persiste pelos séculos é tarefa árdua, mas que é aceita pelas integrantes do Coletivo Artemísia. A internet, neste caso, é uma ferramenta valiosa. “Eliminar não é possível, pois as práticas machistas se desenrolam em diversas esferas além da virtual. Porém, as redes sociais são um instrumento de luta muito poderoso, por conseguir atingir várias pessoas de forma eficaz e rápida e unir quem pensa de forma parecida, criando um ambiente de troca e debates interessante para o movimento”, analisam. “A reação tem sido positiva, mas houve questionamento de alunos do IAD sobre a pertinência do projeto, tendo em vista o desconhecimento sobre representatividade.”









