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Grupo Divulgação estreia ‘Gritos dissonantes’


Por MAURO MORAIS

03/12/2014 às 07h00- Atualizada 03/12/2014 às 08h33

O diretor José Luiz Ribeiro posa com elenco da nova peça, em cartaz até domingo

O diretor José Luiz Ribeiro posa com elenco da nova peça, em cartaz até domingo

Autoritária como em “Alice no País das Maravilhas”, famosa obra de Lewis Carroll, a Rainha de Copas de “Gritos dissonantes”, espetáculo que o Grupo Divulgação estreia nesta quarta e segue somente até domingo, não suporta divergências. Sua voz é sempre suprema. E uma de suas exigências é que as flores de seu jardim sejam todas vermelhas, mas o que brotam são flores brancas. Diante do desacordo, ela manda matar o jardineiro, que considera ser o responsável pela tragédia das cores. É então que começa uma trama de insurreição, capaz de colocar em xeque o poder e a força da temida rainha, figura que aterroriza Alice desde o início da história nonsense, lançada em 1865.

Aproveitando-se da exuberante personagem, José Luiz Ribeiro, autor do espetáculo, leva para a cena uma montagem preocupada com a atualidade política, contada por metáforas repletas de uma fina ironia. “É a história da rainha que não cuidou de seu povo, e acaba pagando por isso”, conta o dramaturgo. Após eliminar todo o processo de julgamento daqueles que considera delinquentes, a rainha envia-o para um calabouço. Mas um novo carrasco não consegue matar os pobres coitados e começa a deixá-los com vida, o que propicia a formação de um grupo de revoltosos. Semelhanças com o hoje não são meras coincidências.

Segundo José Luiz, “a sociedade hoje está chata”. Passado o período eleitoral e as acaloradas discussões nas redes, demonstrando pessoas cada vez mais radicais em suas posições, o dramaturgo e diretor enfrenta o que considera como um novo tempo de ditaduras. “Não dá para falar nada. Tudo é muito enjoado, é muito politicamente correto. A falta do antagonismo sufoca. Vamos falar, de uma forma alegórica, sobre a liberdade das pessoas”, pontua. “Sinto que as coisas estão retornando ao ponto de não permitir opinião. O gritos dissonantes são, na verdade, as vozes que foram para as ruas e foram dissolvidas”, completa ele, que viveu na pele a censura da ditadura militar, quando sua montagem de “Diário de um louco”, de Gogol, foi obrigada a sofrer cortes.

“Esse é um tema de vida inteira”, brinca José Luiz. Por isso, o olhar constante sobre o universo político, tema presente na maioria de seus trabalhos. “Nenhum dos candidatos políticos falou, nessa eleição, sobre cultura. Vivemos uma angústia contínua”, diz o artista. Em flashes, a peça mostra a sujeira dos bastidores políticos, sem precisar citar nomes ou incorrer em marcas conhecidos dos nomes eleitos pelo povo. Pelo contrário. O espetáculo busca, segundo seu autor, a reflexão pelas vias do sensível, resgatando o país expresso em “Disparada”, de Geraldo Vandré (“Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar…”) e em “A montanha”, de Roberto Carlos (“Eu vou seguir uma luz lá no alto, eu vou ouvir uma voz que me chama…”), canções que dão o pontapé da apresentação.

Quem sabe volta

Com oito atores no palco, “Gritos dissonantes” é formada pelo núcleo que trabalhou no apoio de “Cuidados de amor”, última montagem do grupo, que, por tratar de um tema tão polêmico e atual – o envelhecimento e o tratamento aos idosos -, rendeu debates posteriores às encenações e um dos maiores públicos dos últimos tempos. “Fizemos um trabalho com esses meninos, ao longo desse ano, sobre o teatro político, e agora apresentamos o resultado”, ressalta José Luiz Ribeiro. O estudo passou por Augusto Boal e seu Teatro do Oprimido, Flávio Rangel e a produção realizada entre os anos 1964 e 1968. “Nesse período, houve um teatro muito rico. Só depois é que começaram as proibições”, aponta José Luiz.

O integrantes do Divulgação também assistiram ao filme alemão “A onda”, de Dennis Gansel, sobre um levante fascista iniciado em sala de aula, e reviram a montagem de “Hamlet” feita por José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina.

Com os atores trajando máscaras e calçados apenas com uma sandália havaianas, numa referência ao teatro vietnamita, a peça traz no papel protagonista um homem. “Com um homem, a rainha ficou ainda mais dramática”, sugere o diretor. Márcia Falabella, desta vez, não estará nos holofotes. A atriz fez somente a preparação vocal do grupo. José Luiz também estará nos bastidores. À frente, uma turma mais jovem, formada majoritariamente por universitários. Eis, então, um dos motivos de o espetáculo se manter por poucos dias em cartaz. “Eles estão terminando as aulas, muitos não moram aqui. Esse é um trabalho muito experimental. Se vermos que funcionou, talvez voltaremos”, indica José Luiz.

‘GRITOS DISSONANTES’

De quarta a domingo, às 20h30

Teatro do Forum da Cultura

(Rua Santo Antônio 1.112)