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A força do design em Juiz de Fora


Por MAURO MORAIS

20/11/2014 às 07h00- Atualizada 20/11/2014 às 15h58

Selo idealizado por Valéria Faria

Selo idealizado por Valéria Faria

A receita envolve técnica apurada, sensibilidade e pitadas de objetividade e subjetividade. Mas não se trata de fórmula definitiva. Há uma complexidade na presença de inúmeras referências e também no equilíbrio de todo o discurso, tanto o implícito quanto o explícito. Em constante crescimento na cidade, o design gráfico é o protagonista da 10ª Semana de Artes e Design do IAD, na UFJF, que se encerra nesta sexta, e, também, da exposição na Galeria Guaçuí, no prédio do instituto, reunindo professores, alunos e ex-alunos.

“Essa área precede o IAD, já fazíamos isso desde que surgiram os computadores”, pontua a professora Valéria Faria, que apresenta sua produção em selos para o Correios, entre eles uma série em comemoração aos 500 anos do Brasil e outra em homenagem a importantes nomes da literatura nacional, como Cecília Meireles, Murilo Mendes e José Lins do Rego. Além dela, compõem a mostra Afonso Rodrigues, Cláudio Fajardo, Gabriel Patrocínio, Lucas Dutra, Mauro Saar, Nicolle Bello, Ricardo Cristofaro, Rogério Batista, Thiago Corrêa, Vinícius Damaceno e Washington da Silva.

“Sou dos artistas plásticos que trabalharam no design nos anos 1970 e 1980. Sinto-me muito à vontade aqui”, diz Valéria, que também expõe o trabalho que fez ao lado do ilustrador e ex-aluno Fábio Menino para o disco de estreia do grupo Sambavesso, as ilustrações para o livro “Um olhar sobre Juiz de Fora”, de Leila Barbosa e Marisa Timponi, além de postais inéditos. “A área do design cresceu muito. É, por excelência, a tecnologia aplicada, compreendendo tecnologia como o domínio de uma ferramenta. O próprio parque gráfico ajudou a permitir que, hoje, seja possível fazer o que quisermos”, acrescenta Afonso Rodrigues, que durante anos lecionou a disciplina na graduação da instituição. “Mas a linguagem, no design, sempre se sobrepõe à tecnologia”, ressalta ele, autor de três capas da revista inglesa Wallpaper*, uma das maiores do gênero.

Veteranos como o professor e diretor do IAD Ricardo Cristofaro, que apresenta selos como a série em reverência a grandes nomes do país (de Santos Dumont a Tancredo Neves), Cláudio Fajardo, que no início dos anos 2000 fazia ilustrações para a Tribuna (alguns jornais estão na mostra), e Rogério Batista, demonstram que, ainda que importante, o computador não é imprescindível. Há de se ter uma inventividade como base. “É a mistura dos dois. Mais sensibilidade do que a técnica. Muito mais a pesquisa, a metodologia, a construção, as diversas plataformas e suportes de atuação, mas sem deixar de lado a técnica, como ingrediente final. Não adianta ter uma ideia bem desenvolvida, com a técnica mal executada”, comenta Gabriel Patrocínio. Formado em artes e design em 2013, ele hoje atua com arte digital, produção gráfica, modelagem 3D e tratamento de imagem.

E o mercado?!

Segundo Valéria Faria, que como Ricardo Cristofaro especializou-se em arte e tecnologia, o design é uma das linhas mais marcantes do curso da UFJF. “Atualmente o mercado tem muitos desdobramentos, e vemos isso em nossos alunos”, destaca Afonso Rodrigues. Com uma das produções mais inquietantes – por tamanha sensibilidade e poesia -, a artista gráfica Nicolle Bello trabalha, hoje, criando estampas para camisas. “Para mim, não foi um processo de busca, mas algo que aconteceu de maneira bem natural. Sempre gostei muito de desenhar, algo que veio da infância. E o que era brincadeira foi tornando-se realidade com o passar dos anos”, diz a filha de Bello, chargista e ilustrador da Tribuna falecido em 2011. “Acho que foi um grande incentivo vê-lo todos os dias trabalhando com isso. A referência maior aconteceu através da inspiração, da admiração. O prazer dele em criar era contagiante e, sem dúvida, gerou um interesse pelo assunto.”

Graduada em publicidade, tendo abandonado o curso de artes antes de concluí-lo, Nicolle identifica um mercado local ainda não tão fértil. “Não são muitas as oportunidades de trabalho na área, e, das que existem, grande parte não valoriza devidamente o profissional. Porém, acho que isso é uma questão de tempo”, pontua. “Acredito que o mercado em geral do design no Brasil está em crescimento. Juiz de Fora está acompanhando, mas a passos de tartaruga. Na minha opinião, o pior inimigo é a concorrência desqualificada, que oferece serviços a baixo custo, que desvalorizam o mercado. Tenho certeza de que isso um dia vai mudar”, aposta Gabriel.

E já tem mudado. Os avanços tecnológicos deram fôlego novo para a área. Em Juiz de Fora, a implementação de um curso superior cada vez mais especializado colaborou para gerar uma demanda a partir da oferta qualificada. Essa cena atual, tanto nacional quanto local, demonstra a relação cada vez mais íntima com o universo das artes plásticas. “Cresci vendo o trabalho de artistas que desenvolveram trabalhos gráficos com a mesma desenvoltura das artes visuais, como Lygia Pape, uma das maiores artistas plásticas brasileiras, que fez a logomarca da Piraquê, além de toda a identidade visual da empresa. Lygia também desenvolveu vários cartazes para filmes do Cinema Novo, como o de ‘Vidas secas’. Alexandre Wollner, outro artista concreto, foi um dos pioneiros designers brasileiros e, assim como Lygia, popularizou a vanguarda nas embalagens com as latas de sardinha da Coqueiro”, aponta Valéria Faria. Os trabalhos dos mais jovens e dos nem tão jovens que se encontram no IAD revelam essa linha tênue, tão cotidiana, onipresente e instigante.