Entrevista Frei Betto, religioso e escritor

Escritor participa de bate-papo, nesta quinta, no Central
Tudo às claras. Frei Betto não faz rodeios. Aos 70 anos, o religioso que entrou para a Ordem dos Dominicanos em 1966 e já escreveu 60 livros mantém-se objetivo. As mesma liberdades de que desfruta em seus livros leva para as colunas em jornais, revistas e sites, bem como para a internet, onde mantém, desde 2010, uma conta no Twitter. “Deus é gay? ‘Deus é amor’, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta ‘o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.’ E se somos capazes de nos amar uns aos outros ‘Deus permanece em nós'”, refletiu em recente e polêmico espaço no jornal “O Globo”. “Obama está colhendo o que plantou: Nada! Prometeu fechar a prisão de Guantánamo, e não fez. Prometeu acabar com a guerra, e a aumentou”, bradou, gastando menos de 140 caracteres, no último dia 6.
A independência do filho do jornalista Antônio Carlos Vieira Christo e da escritora e culinarista Maria Stella Libanio Christo justifica-se em sua opção por aderir a teologia da libertação. Militante de movimentos pastorais e sociais, ele chegou a ocupar o cargo de assessor especial do presidente Lula entre 2003 e 2004, consolidando sua relação de admiração pelo PT, questionada nas últimas eleições, após o intelectual tecer diversas críticas ao último governo, ainda que novamente tenha anunciado seu apoio a Dilma. “Votarei, enfim, por um Brasil melhor, mesmo sabendo que o atual governo é contraditório e incapaz de promover reformas de estruturas e punir os responsáveis pelos crimes da ditadura militar. Porém, temo o retrocesso e, na atual conjuntura, não troco o conhecido pelo desconhecido”, pontuou ele, em texto elencando 13 razões para votar na política, divulgado na rede.
Preso político durante a ditadura militar, o escritor relatou sua experiência em “Batismo de sangue”, vencedora dos prêmios Juca Pato de 1985 e Jabuti de 1982. Convidado do projeto “Sesc Literatura: Grandes escritores” – que chega a sua última edição este ano -, Frei Betto encontra o público de Juiz de fora nesta quinta, às 20h, no Cine-Theatro Central, para falar sobre seu ofício, sua extensa produção e sua postura coerente e sempre incisiva. Prestes a embarcar para o Brasil, após ministrar algumas aulas em solo italiano, Frei Betto conversou com a Tribuna por e-mail e falou de sua relação com a política e também de sua Minas natal. “O poeta Carlos Drummond de Andrade dizia que mineiro sai de Minas mas Minas não sai do mineiro. Isso acontece comigo”, disse o belo-horizontino radicado em São Paulo, no Convento Santo Alberto Magno, dos frades dominicanos.
Tribuna – Com 60 livros lançados, o que te motiva a escrever?
Frei Betto – O que me motiva a escrever é o ímpeto de extravasar os anjos e demônios que me povoam. Nada me faz mais feliz do que orar e escrever. No romance “Alfabetto – Autobiografia escolar”, narro como descobri, desde criança, minha vocação literária.
– De maneira indireta ou indireta, seus livros sempre tocam no assunto política. Consegue desvencilhar sua vida dessa postura política?
– Diria que quanto a isso não há exceção: todos os autores, explícita ou implicitamente, tratam de política. Divido minha obra em três categorias: memórias, como “Batismo de Sangue” e “Diário de Fernando”, que tratam do período da ditadura militar; ensaios, como “Fome de Deus”, mais espiritual, e “A obra do artista – uma visão holística do Universo”, mais científica; e ficção, como “Minas do ouro” e “Hotel Brasil”. Todas têm, sim, um viés político, mas na ficção tenho o cuidado de não fazer do texto um portador de mensagem. A ficção não tem que ser de esquerda ou de direita, tem que ser bela, esteticamente bem construída.
– “Batismo de sangue” é uma das maiores obras brasileiras sobre o período da ditadura militar. Tudo o que tinha para falar está lá, ou esse assunto nunca se esgota de sua vida?
– Setenta anos após o nazismo, ainda temos novidades sendo publicadas. O mesmo ocorre comigo: sobre o período da ditadura publiquei “Batismo de sangue”, “Diário de Fernando”, “Cartas da prisão” e “O dia de Ângelo”. Ainda teria muito a narrar, mas não sei se a vida me dará tempo.
– Em 2011, você lançou “Minas de ouro”, no qual seu estado natal é protagonista. O que há de Minas em sua produção e em sua vida?
– O poeta Carlos Drummond de Andrade dizia que mineiro sai de Minas mas Minas não sai do mineiro. Isso acontece comigo. “Minas do ouro” aborda 500 anos da história do estado, através da saga de uma família. Meu livro de contos “Aquário negro” é todo centrado em Minas Gerais. No entanto, “Hotel Brasil” foi ambientado no Rio e “Um homem chamado Jesus” em Israel e Palestina.
– Como é o ato da escrita para você como homem religioso?
– Uso a literatura para refletir teológica e pastoralmente, como nos livros “O que a vida me ensinou”, “Reinventar a vida” e o recém-lançado “Oito vias para ser feliz”, sobre as bem-aventuranças do Evangelho.
– Você é um intelectual bastante claro quanto às suas inclinações ideológicas e políticas. Conseguiria ser de outra maneira?
– Jamais. Prefiro correr o risco de me equivocar com os pobres do que ter a certeza de acertar com os ricos e poderosos.
FREI BETTO
Bate-papo com o escritor
Nesta quinta, às 20h
Cine-Theatro Central
Entrada gratuita








