Ouça agora

Bracher roda o país com mostra no CCBB


Por MAURO MORAIS

14/11/2014 às 07h00

Pintura da Igreja de São Francisco de Assis, de São João del-Rei, em mostra sobre Aleijadinho

Pintura da Igreja de São Francisco de Assis, de São João del-Rei, em mostra sobre Aleijadinho

Bracher:

Bracher: “É a grande exposição da minha vida

Reconhecer é identificar e também legitimar. Permanecer é conservar no tempo. Em vida, aos 74 anos, Carlos Bracher conhece o sempre. Além dos próprios esforços do pintor, tem sido muitas as iniciativas de valorização e preservação do trabalho do juiz-forano radicado, desde a década de 1970, em Ouro Preto. Aberta ao público desde a última quarta, a exposição “Bracher – pintura & permanência”, que ocupa o térreo e o terceiro andar do Centro Cultural Banco do Brasil, no Circuito Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, revisa a trajetória do artista em 86 obras, sob curadoria do amigo constante Olívio de Tavares Araújo, com cenografia do conceituado Fernando Mello da Costa. “É a grande exposição da minha vida, porque não é só uma exposição de quadros, mas um monte de coisas. É interativa, tem músicas, vídeos, palavras. Ficou muito ampla. Ampla dos aspectos oníricos e psíquicos da abrangência profunda da alma. Posso dizer-te que são coisas da alma”, reflete Bracher.

Ao longo de 2015, a exposição percorre o Brasil, ocupando o CCBB de São Paulo (de janeiro a março), do Rio de Janeiro (de março a maio) e de Brasília (de maio a junho). Os espaços, considerados os principais museus do país, com visitações recorde, permitirão que as novas gerações conheçam e os admiradores de hoje percebam a grandiosidade de uma pintura visceral, de “força indômita”, como registrou o escritor Jorge Amado certa vez. “Ter isso em vida é uma coisa muito linda. Nunca pude imaginar que essa exposição fosse ficar tão esplêndida. Tem quadros preponderantes, de várias fases, desde os antigos de Juiz de Fora, aos de Ouro Preto, Europa, a marinha, os retratos, a série de Van Gogh”, diz, referindo-se à leitura que propõe a unidade de Bracher em suas fases obscura, cubista, romântica, modernista e a atual.

Em tempos de instalações impessoais, fotografias automáticas e outras criações que retiram todo o aspecto artesanal das artes, a grande retrospectiva apresenta a tela como espaço de criação, reflexão, discussão e silêncios. Está lá seu ateliê, montado com as peças de Ouro Preto, no acúmulo das tintas que resvalam o quadro e inundam as paletas. Está lá, também, um pedaço do Castelinho dos Bracher, seu berço e nascedouro de uma potente cena artística em Juiz de Fora. Está lá, por fim, um artista em sua completude, como aponta. “Valeu a pena viver e, principalmente, pintar. E ambas as coisas se mesclam e se tornam uma coisa só. Elas, a vida e a arte, se fortalecem e se solidificam. De verdade, uma coisa provem da outra. Então, com o tempo e olhando uma retrospectiva assim, a gente se colhe na própria existência. Vejo o tempo que passou e o tempo que é. O tempo não tem idade, é o que é. E só com ele temos essa dimensão”, divaga.

‘Estou gostando de viver’

Somando quase seis décadas de ofício, o autor de pinceladas enérgicas, que retratou Brasília, Ouro Preto, Juiz de Fora, sua irmã Nívea e diversos outros intelectuais, tem a honra de revisitar a própria produção num país afeito às manifestações póstumas e, por consequência, tardias. Ainda que não seja definitiva, “Bracher – pintura & permanência” é uma das maiores e mais completas na trajetória do pintor. “Não poderia fazer isso com 30 ou 40 anos, porque ficaria inverossímil. Não haveria o principal fator, que é esse valor imponderável do tempo”, comenta. E nesse reflexo, o que enxerga? “Há diferenças, mas sou sempre o mesmo pintor. Sou o desenvolvimento de uma só coisa, é o desdobrar de uma unidade, que vai se ampliando nas ‘espctralidades’. Me vejo, o eu de antes, nos quadros de hoje. Há a Juiz de Fora do início, há a nossa terra sempre. Sou e serei sempre um pintor de Juiz de Fora”, exalta.

Reunindo fotos, vídeos produzidos pela filha Blima e textos seus, a exposição multimídia também revela a amplitude que o pintor sempre perseguiu. “Cada vez mais me referencio nas palavras, cada vez mais relaciono cor à palavra. Acho que a cor e a palavra poderiam ser um só verbo de mim”, brinca. E o que te chama atenção nessa exposição? “Estou gostando de viver, me faz renascer. Com a mais absoluta humildade, sinto o desejo de continuar vivendo. Essa exposição está me fortalecendo”, emociona-se.

Na mesma Praça da Liberdade em que está o CCBB, do outro lado, no MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, Carlos Bracher expõe “Aleijadinho 200 anos – Tributo de Bracher”, com 20 telas em homenagem ao artista que ornou sua Ouro Preto. “O Aleijadinho é o grande cidadão do barroco, ele é o grande mestre. Essa é uma fase muito importante de mim, a última”, afirma. Os trabalhos foram feitos ao ar livre, em Congonhas, Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei, Tiradentes e Mariana, e compõem uma série de 83 obras. O processo foi registrado pelo documentário inédito “Nos passos de Aleijadinho”, de Frederico Tonucci, e no livro “Aleijadinho: 200 anos” (editora Graphar).