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Outras ideias com Márcia Rodrigues


Por MAURO MORAIS

02/11/2014 às 07h00

Amante dos animais, Márcia inaugurou o espaço, na Zona Rural, há 14 anos

Amante dos animais, Márcia inaugurou o espaço, na Zona Rural, há 14 anos

Zeck nasceu no dia 21 de agosto de 1996 e morreu 16 anos depois, em 4 de agosto de 2013. A informação retiro de sua lápide, número 679, no Cemitério Parque Morada dos Pequenos Animais, localizado no Vale dos Peões, Zona Rural de Juiz de Fora, próximo ao Bairro Linhares. “Você nos fez mais felizes”, registrou em uma placa a família Laque, dona de Zeck, que também fixou uma pequena escultura de um cachorro segurando a palavra amor. Scooby, cujos restos mortais ocupam a cova 250, também levou alegrias para a família que o viu despedir-se esse ano. “Amigo, obrigado por sempre abanar sua cauda com o coração. Saudades!”, diz a lápide do animal. Princesa era uma “doce e fiel companheira”. Tiguinho, que ainda era chamado de filhotinho aos 13 anos, é lembrado com a inscrição: “Cê marcou nossas vidas”. Esses e muitos outros bichos foram sepultados em um local rodeado por ciprestes e árvores frondosas, em um terreno totalmente gramado, com a dignidade justa por uma presença indiscutivelmente marcante.

“Sempre tive animais, desde criança, e gosto muito. Talvez esse seja um elemento motivador para criar esse espaço. Sempre tive a chance de enterrar. Depois de vir para o sítio, algumas pessoas, amigos, me pediam para sepultar seus bichos. Daí pensei nas pessoas que também poderiam ter essa dificuldade”, conta Márcia Rodrigues, 53 anos, que há 14 anos decidiu se atentar para a morte daqueles que são conhecidos como os “melhores amigos dos homens”. “Na época, os condomínios não podiam proibir animais em apartamento”, lembra. “Conversei com alguns veterinários, que me falaram da oportunidade, e resolvi fazer. Deu certo”, diz, olhando para as mais de 700 covas que se espalham, ordenadamente, por um espaço bucólico, cheio de sons de pássaros, mugidos de boi e zunidos de insetos.

Com sua voz baixa, uma visível calma, Márcia não é veterinária, nem tampouco militante. “Já tive tartaruga, galinha, coelho… Aquelas coisas de antigamente, de todo mundo ter um quintal onde tivesse de tudo. Tenho afinidade com os bichos, hoje tenho cavalo, galinha e outros animais”, conta ela, que mora a poucos metros do lugar. “Fico feliz, porque acho que atingi o objetivo de dar dignidade para os bichos. A gratificação que tenho é o retorno dos donos”, pontua. “Perder um bichinho ou qualquer coisa de que gostamos muito é bastante complicado. Apesar de que, para crescer e amadurecer, precisamos perder, essa é uma questão difícil de lidar. Esse espaço ajuda a elaborar isso, a suavizar a dor”, completa a psicóloga por formação.

Fino trato

Ainda que se dedique à morte, não há nada de mórbido no local. Os pequenos animais repousam em calmaria. E sem excessos. Sepultar, nesse caso, é apenas uma continuidade do tratamento dispensado ao longo da vida. “Recolhemos o bichinho na casa da pessoa ou na clínica e sepultamos. Aqui ele tem uma cova individual, que permanece por dois anos. A partir desse tempo podemos reutilizar esse espaço para o sepultamento de outro animal. Retiramos os ossos e, normalmente, passamos para uma cova coletiva. Algumas pessoas querem os ossinhos de volta, porque, às vezes, tem outro lugar onde querem perpetuar”, explica Márcia. “Quando é muito pequenininho, e a pessoa não tem um espaço, eu mesmo sugiro que coloque em um vaso de flores em casa. Com o tempo, aquilo se decompõe e some”, acrescenta. “A ideia é poder oferecer um final com respeito. Não tem sentido, nem com o animal que representa tanto para seus donos, nem no que se refere à saúde pública, jogar no lixo, no rio ou em outro lugar.”

Sem luxo e sem lixo

Com licença ambiental e totalmente legalizado para funcionar, o local não apenas reflete a sociedade atual e o crescimento da atenção dada aos animais domésticos, mas também a necessidade de se pensar em vias naturais e responsáveis. “Fazemos da maneira mais ecologicamente correta, no sentido de favorecer a decomposição. Tudo o que envolve o animal no momento de transporte, retiramos. Tudo o que é sintético nós tiramos e jogamos uma camada de cal por cima, já que é bactericida e ajuda no processo de decomposição”, diz, reforçando um plural expresso na presença de Seu Zito, ajudante que também acreditou na ideia e, na última sexta, partiu. “Ele participou de tudo. Foi uma pessoa muito querida, que trabalhou muito por esse espaço”, destaca, mostrando o enorme zelo presente no terreno. E cuidado não diz respeito a luxo. Tanto que hoje seguirá como um dia comum no cemitério dos bichinhos. “Nesses 14 anos, nunca observei nada diferente nessa data. Normalmente peço para que as visitas sejam feitas aos finais de semana. E tem sábado ou domingo em que temos um movimento. Isso é legal porque eles acabam trocando os sentimentos”, afirma.

Lei natural

Na morada final de Zeck, Scooby, Princesa, Tiguinho e muitos outros, também estão velhos conhecidos de Márcia. “Já enterrei duas cachorras da raça Dobermann, irmãs, que vieram para cá logo que comprei o sítio. Elas me acompanharam durante 13 anos”, conta, dizendo ainda se emocionar em cada experiência. “É a lei da natureza. Ninguém fica para a eternidade”, pontua, para logo contar a história de uma mãe que, receosa em levar o filho a um cemitério, perguntou sobre o clima do lugar e, após ouvir sobre a serenidade característica do meio rural, optou por levar o menino para o sepultamento de seu cachorro. “Um dia, fazendo a manutenção do espaço, me deparei com um carrinho do menino. Ele veio e tentou enterrar o brinquedo que havia trazido, junto com o bicho. Para essa criança o animal teve muita importância”, emociona-se Márcia. “As pessoas se sensibilizam.”