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Passo atrás

Novo embate entre o Governo federal e os estados não ajuda em nada as políticas de combate à pandemia. Ao contrário, por falta de consenso nas ações, só prejudica


Por Tribuna

02/03/2021 às 07h00

Em pleno ciclo de recrudescimento da pandemia do coronavírus, um novo embate entre a Presidência da República e os governadores entra na agenda política. Desta vez, por conta de repasses. O Governo federal diz que não é por falta de dinheiro que a situação chegou a tal estágio, e sim por má gestão dos governadores, que receberam recursos necessários para implementação de seus projetos.

Em carta, 16 governadores – o mineiro Romeu Zema, de novo, não entrou em confronto com o presidente Jair Bolsonaro e não assinou o documento – destacaram que o presidente e seus ministros estão colocando na conta verbas constitucionalmente obrigatórias, que não pertencem à União, mas o ministro das Comunicações, Fábio Faria, voltou às redes sociais para dizer que a conta está certa. Com isso, a corda continua esticada num claro passo atrás nas relações institucionais.

O dado relevante desse impasse é que, como tantos outros, ele não conduz a lugar algum, mais parecendo um enfrentamento em que a população, ora na arquibancada, se torna a única perdedora. Os atores do conflito vão continuar se pegando em busca de um protagonismo inoportuno, pois o ponto central seriam ações para garantir uma virada do jogo. Em vez de campanhas sistemáticas de esclarecimento, destacando a importância das máscaras e o combate às aglomerações, as lideranças estão falando de contas, e cada lado joga a culpa no outro, enquanto o dever de casa fica em segundo plano.

A agenda central deveria ser a criação de leitos de UTI, muitos deles fechados tão logo a situação passou por um ciclo de melhora, e a aplicação de vacinas. O país caminha a passos lentos na imunização, e a incerteza afeta diretamente o público-alvo, que desconhece datas de atendimento em razão da falta do produto. Quando chegam aos postos, as doses são sempre aquém da demanda.

O próprio presidente já se convenceu de que a vacinação em massa é o caminho mais rápido, mas, ao mesmo tempo em que assume tal convicção, cria um impasse com os governadores, que deveriam ser parceiros nessa empreitada. As instâncias de poder, quando atuam em compartimentos estanques, acabam perdendo eficiência. Presidência, governos estaduais e prefeituras precisam ter o mesmo foco, pois só assim o país deixará a incômoda posição de recordista em contaminação, na contramão de outros estados nacionais nos quais, se não ao normal, a situação passa por melhor estágio.