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O Brasil não cabe em um mapa de cores

“Há anos observo, com olhar crítico, a forma como a mídia tradicional cobre os resultados das eleições brasileiras”


Por Marise Baesso *

28/10/2026 às 06h00

Há anos observo, com olhar crítico, a forma como a mídia tradicional cobre os resultados das eleições brasileiras. Uma das práticas que mais me chamam a atenção é a representação do país por meio de mapas coloridos, que dividem o território nacional em blocos políticos. O Nordeste e o Norte aparecem frequentemente associados ao vermelho, enquanto o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste são representados pelo azul. Embora esse recurso facilite a visualização dos resultados eleitorais, também pode reforçar estereótipos, alimentar preconceitos e aprofundar a hostilidade entre brasileiros de diferentes regiões.

O problema é que a realidade brasileira é muito mais complexa do que as cores de um mapa. Os territórios não são homogêneos, e as pessoas que vivem neles não compartilham necessariamente as mesmas ideias, os mesmos valores ou as mesmas preferências políticas. As cores se misturam, os pensamentos se cruzam e as diferenças convivem dentro de uma mesma cidade, de um mesmo bairro e até de uma mesma família. O comportamento eleitoral é resultado de múltiplos fatores sociais, econômicos, culturais e históricos, que não podem ser explicados apenas pela localização geográfica.

Minas Gerais é um exemplo dessa complexidade. Em determinadas eleições, o mapa do estado apresentou um tipo de configuração no primeiro turno e outra no segundo, com mudanças na distribuição das cores e, consequentemente, na representação das preferências eleitorais. Essa dinâmica evidencia que o voto não é estático e que o eleitorado está longe de constituir um bloco uniforme. O mesmo acontece em outras regiões do país, onde as escolhas dos eleitores variam de uma etapa para outra da disputa. Reduzir essas realidades a uma única cor significa ignorar as nuances de uma sociedade plural, na qual opiniões e posicionamentos podem mudar.
Recentemente, estive de férias no Nordeste e visitei João Pessoa, na Paraíba. Durante a viagem, encontrei pessoas com diferentes histórias, visões de mundo, ideias e ideologias. A experiência me fez refletir, mais uma vez, sobre o quanto é limitado tentar compreender uma população a partir de generalizações geográficas ou eleitorais. Uma cidade não é formada por um único tipo de pessoa, assim como uma região não pode ser definida exclusivamente pelo resultado das urnas. Há diferenças, contradições, convergências e divergências que não aparecem nos mapas, mas que fazem parte da vida cotidiana de quem habita esses lugares.

É nesse contexto que precisamos discutir a responsabilidade social do jornalismo. A maneira como os resultados eleitorais são apresentados influencia a forma como a sociedade interpreta a si mesma e enxerga o outro. Quando a cobertura transforma estados e regiões em grandes blocos ideológicos, corre o risco de alimentar rótulos e consolidar a ideia de que existem territórios inimigos, separados por convicções políticas irreconciliáveis. O problema não está em utilizar mapas ou recursos visuais para apresentar dados, mas em permitir que essas representações simplificadas substituam a análise da realidade. O compromisso jornalístico deve ir além da informação imediata: exige contextualização, profundidade e atenção aos possíveis efeitos sociais das narrativas que produzimos.

Como jornalista, acredito que nosso papel é justamente tentar decodificar a realidade de forma menos simplista e menos estigmatizante. Não basta mostrar quem venceu, onde venceu e qual cor predominou. É preciso investigar o que os números revelam, compreender os contextos locais, ouvir diferentes vozes e reconhecer aquilo que os dados, por si só, não conseguem explicar. O jornalismo precisa resistir à tentação de transformar a complexidade social em imagens fáceis de consumir, mas que podem produzir interpretações superficiais. Informar também é questionar as próprias formas de representar o mundo.

Talvez seja hora de a cobertura eleitoral dar mais espaço às nuances, às histórias e às contradições que existem por trás dos números. Em vez de reforçar divisões, o jornalismo pode ajudar a ampliar a compreensão sobre as diferentes realidades brasileiras. O Brasil real não é monocromático. É plural, complexo e impossível de reduzir a duas cores.

* Marise Baesso é jornalista.

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