Em defesa dos campeonatos de “farmar aura”
“É importante a atenção para o efeito que atividades como “farmar aura” pode trazer do ponto de vista subjetivo e de socialização dos jovens”
Ao tomar conhecimento desta nova manifestação cultural dos jovens – que consiste em movimentos de expressão corporal, com plateia e jurados os quais reagem e qualificam a apresentação de cada um – por curiosidade fui pesquisar estes eventos em várias cidades. Acontece que, boa parte da reação das pessoas tende a negativa com comentários do tipo “essa geração está perdida”, “os jovens estão emburecidos”, “não faz nenhum sentido campeonato deste tipo”.
Num primeiro momento a reação natural é acolher esses argumentos entendendo que, historicamente, os eventos de repercussão social tendiam a ser grandes apresentações artísticas ou esportivas. Acontece que, conceitualmente, a contemporaneidade se expressa através de eventos como o “Big Brother” ou as redes sociais. E, do ponto de vista geracional, sabemos que as pessoas tendem a ter saudosismo com o seu tempo e criticar o que as novas gerações criam. Sempre foi assim.
Contudo, é importante a atenção para o efeito que atividades como “farmar aura” pode trazer do ponto de vista subjetivo e de socialização dos jovens. O mundo digital está afastando todas as pessoas, “farmar aura” aproxima; as pessoas estão vivendo sobretudo nas telas, “farmar aura” é presencial; as pessoas estão indiferentes às outras no mundo de hoje, “farmar aura” exige posicionamento.
Esta semana estava navegando numa rede social e assisti a um vídeo de um jovem visivelmente com limitações cognitivas no meio de uma roda de “farmar aura”. Este jovem se expressava, fazia seus movimentos e respondia corporalmente às reações do público. Me pergunto se nas atividades mais valorizadas em outros tempos este jovem teria esta chance ou se seria reprimido ou isolado. Existe um provérbio que diz assim: “Diga-me e eu esquecerei; mostre-me e eu lembrarei; envolva-me e eu entenderei”.
Talvez possamos entender que cada ponto de vista é o olhar de um ponto. E como a sociedade humana escolheu – do ponto de vista legal – um mundo inclusivo e que valoriza a dignidade humana, por que essas reações agressivas aos jovens? Eles não estariam adoecendo muito em vista das nossas reações desmesuradas?
*Benjamim Júnior é jornalista e professor.
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