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Quando um povo perde a esperança

“A vida em sociedade gera um mal-estar difuso, que procura um culpado”


Por Elílio de Faria Matos Júnior *

11/10/2026 às 06h01

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, com 47% dos votos válidos. Seriam dezenas de milhões de brasileiros fascistas? A pergunta está mal colocada. O voto é movido por afetos: medos, ressentimentos, vínculos e desejos.

A vida em sociedade gera um mal-estar difuso, que procura um culpado. A violência urbana oferece um culpado concreto: o bandido. Daí nascem a nostalgia de uma ordem supostamente perdida e a necessidade de nomear quem a destruiu: o PT, o “sistema”, a “ideologia de gênero”, a “doutrinação”. O eleitor escolhe um lado antes de escolher um programa e sabe, antes de tudo, contra quem vota. Também não vota só pelo bolso: segurança, família, religião e reconhecimento são interesses tão reais quanto o salário. Muitos aceitam perdas materiais em troca da promessa de ordem.

Daí o aparente paradoxo de votar “contra o crime” num candidato investigado por corrupção. O criminoso temido é o da rua, não o do gabinete. E a denúncia contra alguém do próprio lado soa como perseguição, enquanto a denúncia contra o adversário soa como confirmação. Nesse cenário, influenciadores nadam de braçada: quem sabe falar vence quem sabe do que fala, ainda que todo o conteúdo seja equivocado.

Há, porém, dois fatores decisivos. O primeiro é o STF. A trama golpista não foi fruto da imaginação: houve uma tentativa real de golpe, que teria custado muitas vidas, e o tribunal reagiu a uma ameaça real. Mas exagerou nas penas dos civis do 8 de janeiro, em grande parte vítimas do delírio bolsonarista, arrastadas por líderes que sabiam o que faziam. Penas desproporcionais fabricaram mártires. Somou-se a isso a imagem do juiz imperador, que concentra poder e não presta contas a ninguém. Essa imagem, já indigesta ao povo, passou a ser também a do juiz corrupto. Foi a gota d’água. Nosso povo se coloca sempre ao lado de quem vê como perseguido. Assim Lula voltou ao poder depois dos abusos da Lava Jato; assim o bolsonarismo chega agora fortalecido, e o novo Senado mostra para onde foi o ressentimento.

O segundo fator é a desesperança. A riqueza segue fortemente concentrada, milhões vivem na insegurança, e as esquerdas não realizaram plenamente a redistribuição de renda que prometeram. Quando o horizonte se fecha, promessas radicais ganham terreno.

Restam as perguntas: como devolver esperança ao povo? Quem ganha com o ressentimento? Como punir quem ameaça a democracia sem fabricar mártires? Uma sociedade sem esperança torna-se presa fácil de quem vende soluções mágicas.

* Elílio de Faria Matos Júnior é presbítero e professor de Filosofia e Teologia no UniAcademia

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