Fora da janela, há horizonte?

“A Declaração Universal dos Direitos Humanos trouxe uma ideia fundamental de humanidade, de uma base ética global e de princípios fundamentais para a própria existência humana”


Por Juber Marques Pacífico, advogado, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da OAB/JF e membro do Instituto Gabriel Pimenta de Defesa dos Defensores de Direitos Humanos

10/12/2025 às 07h44

Certa vez, em uma mesa de bar, falando sobre a vida e as tragédias que cercam a existência humana, um dos meus amigos brincou que deveríamos escrever um livro intitulado “Fora da janela, não há horizonte: um olhar realista sobre a vida”. Achei muito bom o título. Rimos sobre a sugestão e concluímos que ela era fruto dos efeitos etílicos da noite. Tanto que o livro nunca se concretizou.

Nele, discutiríamos as dificuldades que a vida nos impõe, e mostraríamos o nosso olhar sobre os absurdos que estamos vendo acontecer todos os dias: feminicídios, violência política, desrespeito religioso, abuso infantil, racismo… e tudo isso possibilitaria refletir se o mundo está cada vez pior ou se é apenas uma percepção manipulada por todas essas informações. Debateríamos se nós, enquanto sociedade, estamos cada vez mais individualistas, consumistas e se a vida perdeu importância.

Calma, não só de tragédias seria o livro. Também falaríamos sobre os marcos da civilidade, notadamente construídos e fortalecidos no pós-guerra, momento em que tentamos juntar os cacos da destruição humana, sob os escombros de um mundo fragmentado. E de certo modo, conseguimos. Mesmo com as tragédias humanas que testemunhamos nos dias atuais, tenho a convicção de que tudo isso poderia ser muito pior. E mesmo que muitos considerem esse papo um mimimi, não há como desconhecer a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948, como um marco civilizatório da história humana.

E antes que me perguntem, já vou logo responder: a Declaração não resolveu todas as mazelas humanas e está longe disso. Sabemos que o mundo ainda convive com muitas questões que de um modo ou outro agridem a nossa dignidade – e que trazem descrença de uma parte da sociedade quanto à efetividade das normas humanitárias. Mas, não caiamos nessa arapuca. A Declaração Universal dos Direitos Humanos trouxe uma ideia fundamental de humanidade, de uma base ética global e de princípios fundamentais para a própria existência humana. Uma ideia de que uma única coisa nos une como iguais, apesar das nossas diferenças: nossa humanidade. Somos o próprio início e o próprio fim. Jamais podemos ser meio.

Hoje, dia 10 de dezembro de 2025, comemoramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos, oportunidade para sentir que essa ideia humanitária está viva em cada um de nós – mesmo naqueles que não acreditam na sua força e necessidade: Nascemos livres e iguais, e podemos determinar nossa existência com base nas nossas escolhas. Temos o direito de exercer tais garantias sem que as violências possam nos impedir. Talvez, fora da janela haja horizonte.

Talvez possamos olhar a vida com realidade, sem perder a nossa humanidade, nossa solidariedade, nosso senso de pertencer a essa grande categoria da existência: a humana. Talvez devêssemos falar mais sobre direitos humanos – não só no dia 10 de dezembro. Talvez eu nunca escreva o livro, mas já valeu a reflexão.

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