Por Gabriella Weiss

02/09/2016 às 07h00- Atualizada 02/09/2016 às 11h01

Entre mortos e feridos estavam a democracia e a justiça. Ensanguentadas, doloridas, cansadas, mas não derrotadas, esperam urgentemente por reforços. Com a decisão do impeachment, abrimos precedentes para o desrespeito ao nosso voto, para comentários machistas sobre a presidência de uma mulher, para a dúvida e o medo do que está por vir. Não podemos acreditar que a separação de dois jornalistas globais seja assunto mais importante que o momento político atual ou então acreditar que o impeachment é sobre Dilma, quando, na verdade, é sobre uma estrutura política falha, sobre um retrato do machismo, racismo e classicismo. Não entendo o impeachment como um julgamento jurídico, mas político, pautado não por provas, mas pelos interesses de um Congresso que não abrirá mão do poder e que não representa a diversidade de origens e pensamentos de uma sociedade.

No fim das contas, não importa se você votou em Dilma, Aécio ou em quem quer que seja. O que importa na democracia não é ganhar, mas é ter o direito de escolher e ter a garantia de que seu voto fez diferença. Não podemos deixar o voto no Brasil ser obrigatório, enquanto o respeito ao mandato é facultativo. Alguns podem acreditar estar de um “lado vencedor” e, assim, já se perde. Perdemos todos, coletivamente, uma vez que uma escolha política não pode ser voltada para o próprio umbigo e atender unicamente aos privilégios que temos. Votamos por um país, por 206 milhões de pessoas que queremos que tenham as mesmas oportunidades que nós. Não venço se acredito estar vencendo sozinha.

Nasci nos anos 1990. Sobre as crises, a repressão, as manifestações e as lutas pelos direitos mais básicos eu não tenho lembranças, tenho relatos. Tive a sorte de nascer em um período em que saíamos de uma crise longa em que o Brasil ficou marcado pela dura ação do tempo que viveu. Minhas maiores lembranças são de momentos de prosperidade, de avanços, de empoderamento de oprimidos e de classes historicamente exploradas, de projetos sociais que beneficiavam a muitos.

Minha geração não tem marcas do medo: temos medo do desconhecido, do que não sabemos o que esperar. As gerações mais antigas têm medo porque sabem exatamente o que temer. Já nós nos acostumamos com o conforto, com a liberdade de dizer o que desejamos, de manifestar nossas crenças políticas e de, por que não, fazer um textão no Facebook. Não fomos acostumados a lutar para termos conquistas políticas.

O mundo é dos indignados que questionam, problematizam e lutam pela melhor versão da sociedade em que vivem. A democracia é frágil, mas continuamos em luta. Ela não está morta.