JOGO ABERTO
De onde menos se espera é que não vem nada mesmo. A frase, uma das muitas atribuídas ao jornalista e escritor Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly , o Barão de Itararé, é emblemática para a situação do senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Referência do Senado por sua postura dura no combate à corrupção, tendo atuado como relator em várias comissões de inquérito e egresso do Ministério Público, está envolvido numa série de denúncias de envolvimento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, preso pela Polícia Federal sob acusação de chefiar um esquema de exploração de jogos de azar.
O senador mantém um constitucional silêncio, mas as denúncias têm se agravado à medida que o caso continua na ordem do dia do Congresso. O parlamentar tem muitos amigos, mas também – por conta de seu estilo – cultivou vários inimigos na instituição. Na terça-feira, o procurador-geral da República, que até então fazia ouvidos de mercador sobre o caso, considerou consistentes as denúncias e pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito.
Como culpa ou inocência só se estabelece após sentença de mérito, é preciso cuidado em analisar o caso do senador, a despeito de todas as consistências, pois há casos em que a clareza das denúncias acaba indo para o ralo numa investigação mais profunda. Certo, até agora, há uma cozinha de luxo que ele ganhou do contraventor – que já seria um caso grave – e os grampos autorizados pela justiça nos quais ele é flagrado pedindo dinheiro a Cachoeira, de quem se diz amigo, para pagar um voo fretado. Por ofício, Demóstenes não é ingênuo.
Como tantos outros, o caso deve ser encaminhado pela via policial, mas, por conta do histórico do parlamentar, os partidos adversários antecipam pedidos para a sua cassação. O DEM, seu partido, já admite até expulsá-lo ante o constrangimento que envolve a sigla. É preciso apurar e, se for o caso, punir, mas condenações antes da hora são frutos do jogo político e da própria insistência das ruas em se fazer justiça. Que esta, então, seja feita, mas dentro das instâncias legais.










