SILÊNCIO DOS BONS
Irritado com o procurador-geral do estado, que pediu informações a respeito de um cachê de R$ 650 mil para a cantora Ivete Sangalo fazer um show na inauguração de um hospital, o governador do Ceará, Cid Gomes – ao que tudo indica, estopim curto como o irmão Ciro – classificou o representante do Ministério Público como um garoto que quer aparecer. Em Brasília, o Congresso se recusa a responder ao pedido de informação do Supremo Tribunal Federal sobre a lei que trata de repasse aos estados, embora o presidente do Senado, José Sarney, tenha negado ter protestado contra o Judiciário. Ele, no entanto, não tomou providências para resolver o impasse.
Desde o ano passado, sobretudo na fase mais crítica do julgamento do mensalão, o Legislativo tem reagido às decisões do Judiciário. O presidente da Câmara, Marco Maia, chegou a antecipar uma desobediência civil caso os seus colegas que foram condenados recebessem ordem de prisão. Iria acantoná-los nas dependências do Legislativo, desafiando aqueles que tivessem peito para prendê-los. Há muitos outros casos, mas os dois bastam para indicar que pessoas eleitas para elaborar leis ou dirigir estados, como o governador, estão indo além dos limites, questionando decisões previstas em lei fora dos autos, onde devem ser exarados os recursos. Entendem, pelo menos é essa a leitura que deixam para a opinião pública, estar acima da lei, não tendo a obrigação de cumpri-las.
Além do equívoco, contribuem para banalização das próprias instituições, inclusive das demais que deveriam ser chamadas a cobrar o cumprimento de normas aprovadas em nome da população. Em seu comentário, ontem, o colunista Jânio de Freitas, da Folha de S. Paulo, chama a atenção para esse cenário de silêncio dos bons. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e o próprio Ministério Público viram as costas para as bandalhas do poder. Ele se referia à série de denúncias contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que deve ser eleito presidente do Senado, e o deputado Henrique Alves (PMDB-RN), favorito para ganhar a presidência da Câmara. Ambos fazem o que fazem sem que nada impeça sua rota de dirigir o Legislativo brasileiro, entrando nas primeiras filas da sucessão.
Num dos seus memoráveis discursos, o pastor e ativista Martin Luther King, ante a omissão da opinião pública para a segregação dos direitos civis nos Estados Unidos denunciou: O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Nunca tal afirmação esteve tão atual.











