A GUERRA É AQUI
Divulgado ontem, o Anuário de Segurança Pública aponta para uma queda de 2,1% no número de homicídios em todo o país. No ano passado, foram contabilizados 20.974 assassinatos, 1.051 mortes a menos que em 2009. Mas os próprios especialistas advertem que não é possível comemorar, pois os dados fornecidos pelos estados são incompletos. Trata-se de um quantitativo importante, pois a subnotificação costuma comprometer as estatísticas por não revelar com clareza a realidade. Pelo relatório, Minas só repassou 74% dos dados, mas o caso mais grave é de Santa Catarina, em que somente 31% das informações foram enviados ao Governo federal.
Entre os vários pontos a serem considerados, dois chamam a atenção. O primeiro é a insegurança dos dados, já que há sempre o risco de não revelarem a realidade da segurança pública no país. Mesmo com as comemorações, a percepção é outra, sobretudo nas metrópoles, embora, com o avanço das drogas, a violência tenha ampliado seu espectro, tornando-se endêmica, afetando até mesmo regiões com baixo histórico de crimes. E este é um problema que mobiliza até mesmo os prefeitos, já que segurança pública deixou de ser uma prerrogativa exclusiva da União e dos estados.
O outro ponto é o número de mortes e sua repercussão no inconsciente coletivo. De acordo com o anuário – mesmo com os dados incompletos -, 20.974 pessoas foram assassinadas em 2010, mas não se percebe algum tipo de indignação, seja nas ruas, seja nas Casas políticas. Não há histórico nos diversos conflitos formais pelo mundo afora em que tantas pessoas morreram por ações violentas. O noticiário se volta sistematicamente para os conflitos do Oriente Médio, mas não leva em conta que a maior incidência está aqui. É impossível não perceber a necessidade de ações mais intensas, não havendo espaço para celebrar quando cerca de mil mortes a menos foram registradas. Foi uma queda, é fato, mas, num cenário de grandes números, isso significa apenas cerca de 5%. No entanto, trata-se de uma avaliação que pode se tornar mais perversa quando todos os estados remeterem seus números completos revelando o Brasil real. O que ora se vê, no entanto, já é suficiente para exigir das instâncias de poder mais investimentos e mais políticas públicas para enfrentar essa verdadeira guerra.










