NÚMEROS INCÔMODOS


Por Tribuna

23/12/2011 às 07h00

Os números apresentados pelo IBGE sobre a ocupação de favelas no Brasil são perversos, preocupantes e paradoxais. No primeiro caso, apontam que é necessário rever programas de habitação, pois, em dez anos – tempo utilizado pela pesquisa -, a ocupação dessas regiões quase dobrou. Saímos de 6,5 milhões em 2005 e chegamos, agora, a 11,4 milhões. Nesse pacote de gestão, estão dois anos do período Fernando Henrique (PSDB) e os oito de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O segundo aspecto é a curva ascendente que ainda se mantém na criação de novas favelas, embora o Governo tenha anunciado vários programas, especialmente o Minha casa minha vida, que não estão dando conta da demanda. Além disso, estão eivados de críticas em várias regiões pelo seu uso político em vez da prioridade social. O número de habitações anunciado ainda está bem distante do que foi construído até agora.

Finalmente, há um paradoxo. O número de moradores em favelas – o termo agora é comunidade – dobrou em um período em que a economia também saiu de seu marasmo. O Brasil se afastou da lista do terceiro mundo e tornou-se uma referência econômica, tendo se saído bem até em momentos críticos, como a crise de 2008. Mas nem assim, como atesta o IBGE, conseguiu reverter um cenário de pessoas morando em espaços comprometidos, não só pela precariedade, mas também pela violência.

É certo que o próprio Governo conhece a receita, mas também fica claro que entre discurso e prática há uma distância abissal, pois uma das interferências mais críticas é a capacidade de construção que fica mais na possibilidade. Se há recursos e investimentos, não faz sentido um quadro que não honra a imagem de um país que tem a pretensão de primeiro mundo. A política habitacional, pois, tem que ser revista ou aperfeiçoada para reverter esse impasse social.