TIRO NO PÉ


Por Tribuna

22/04/2012 às 06h00

É próprio da tática forense desqualificar a testemunha como forma de enfraquecer o seu argumento. Costuma dar certo, pois a opinião pública tende a fazer julgamentos a partir de nomes, e não de fatos. Assim foi quando o deputado Jair Bolsonaro, ao invés de responder a uma indagação da cantora Preta Gil, preferiu classificá-la pejorativamente. Em um vídeo gravado para o programa CQC, ela perguntou qual seria a reação do deputado se um filho dele namorasse uma negra. A resposta foi dura: Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, e meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu. Mas e a pergunta? Ficou sem resposta, embora até os entrevistadores tivessem se dado por satisfeitos.

Bolsonaro agiu como se uma pessoa desqualificada não pudesse fazer uma pergunta ou ter uma opinião.

É possível considerar que mesmo personagens com ficha suja possam ter argumentos sólidos na defesa de seus pontos de vista, embora se rejeitem suas maracutaias. A Comissão Parlamentar de Inquérito que vai apurar as ações do bicheiro Carlinhos Cachoeira – e um infindável número de outras ocorrências – tem entre seus integrantes alguns parlamentares que estariam impedidos pelos critérios da Ficha Limpa, e outros que, em algum momento, fizeram da vida pública um atalho para benefícios pessoais. Com base no argumento de que o personagem vale mais do que sua fala, é possível admitir que a comissão vai terminar numa grande pizza, pois seus componentes não estariam dispostos a colocar lenha na fogueira em função dos seus próprios históricos.

Pensar assim, no entanto, é apostar no fracasso antes de o jogo começar. A CPI, sem um foco específico, terá dois caminhos: ou vai causar choro e ranger de dentes, ou vai desmoralizar ainda mais o Congresso. É, pois, uma escolha dos próprios parlamentares. Se, no início, havia claro interesse em prejudicar a oposição, agora estão todos no mesmo balaio, para preocupação coletiva da Câmara e do Senado. CPI é um voo cego. Sabe-se como começa, mas ninguém garante o seu desfecho. Em ano eleitoral e às vésperas de julgamento do mensalão, deputados e senadores descobrem, agora, que deram um tiro no pé, mas entraram num caminho sem volta.