ANDAR DE CIMA


Por Tribuna

21/08/2011 às 07h00

Corre no território livre da internet uma frase atribuída ao jornalista Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El País. Diz ele: Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?. Não é preciso entrar no mérito das manifestações citadas para avaliar o silêncio que marca parte da sociedade quando se trata de corrupção. Não é recente o uso do dinheiro público em proveito pessoal, mas também não ocorreu uma necessária mudança cultural capaz de inverter o jogo. A polícia cumpre o seu papel, uma parte se indigna, mas o cenário se mantém o mesmo.

Arias se equivoca, porém, quando diz que não há mobilização. A Lei da Ficha Limpa, que mudou parâmetros de ocupação de cargos públicos, foi resultado das ruas, com a adesão de quase dois milhões de eleitores pelo país afora que forçaram o Congresso a aprovar e o Governo a sancionar um texto tão relevante. O eleitor, mesmo ante críticas ao modo como alguns agem, tem feito o seu papel. A impunidade é resultante não da legislação em si, pois o país é pródigo em leis, mas na sua execução e nas brechas que permitem o trânsito infinito de ações pelos corredores da Justiça. O noticiário aponta o problema, e a polícia tem feito as prisões, mas, antes mesmo do dia seguinte, muitos dos autores estão nas ruas.

É certo que há exageros, mas a possibilidade de recursos, atrasando sentenças de mérito, provoca um passivo que reflete na opinião pública e consolida o discurso recorrente de que as cadeias não foram feitas para o andar de cima. E não há como contestar ante tantas evidências. O mensalão, uma das faces mais emblemáticas do patrimonialismo, ainda tramita no Supremo. Os anões do orçamento continuam ricos, e acordos de toda sorte são firmados à revelia do bom-senso. Não basta, pois, só mobilizar. É preciso incrustar no inconsciente coletivo a necessidade de vigília e punição aos responsáveis. Caso contrário, prevalecerá a máxima de Eduardo Alves Costa em No caminho com Maiakóvski: Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Por conta da omissão e da fragilidade da legislação, usam e abusam do que é do povo.