NOVA REPÚBLICA


Por Tribuna

16/01/2015 às 07h00

A voz das ruas sugere que não se deve ficar preso ao passado, mas este também não pode ficar no limbo da história, devendo servir de referência para atos futuros, sobretudo quando tem relevância. Ontem, a despeito da importância, pouco se falou dos 30 anos da instalação da Nova República, encerrando um ciclo de 21 anos do governo militar. O voto pelo Colégio Eleitoral, que tipificava uma eleição indireta, não tirou o mérito da mudança. Tancredo Neves, já licenciado do Governo de Minas, venceu o paulista Paulo Maluf numa votação do Congresso Nacional. A ironia se manifestaria duplamente dias depois: ele não assumiria a Presidência, e seu vice, José Sarney, tinha sido um dos próceres do ciclo ditatorial como presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena).

A despeito disso, foi uma virada na vida do país, pois cumpre-se, até agora, a profecia de Tancredo no seu discurso da vitória. “Esta eleição indireta será a última de nossa história.” E foi. O primeiro presidente eleito foi um caçador de marajás, que apresentou um discurso de moralidade e por ele foi abatido pelo próprio Parlamento ao ter o mandato cassado. Foi o primeiro grande teste da jovem democracia. Fernando Collor foi apeado do poder, mas as instituições se mantiveram estáveis, como também nos últimos anos diante de escândalos como o mensalão e o assalto ao caixa da Petrobras. O país passou por eleições duras, mas a maturidade política se consolidou ao dar posse aos eleitos.

A lição a ser tirada envolve a própria classe política. Tudo começou nas ruas, com a campanha pelas Diretas, com a mobilização de milhões de brasileiros pelo país afora. Essas mesmas ruas já deram o sinal de querer mudança. Não nas instituições mas no modus de se fazer política. A reforma continua presa aos textos, sem sinais de sair do papel, mesmo diante de discursos da presidente Dilma Rousseff, na posse da reeleição, e do presidente do Senado, Renan Calheiros. Há consenso sobre a fragilidade da legislação em vigor, mas esse consenso se esgota em si mesmo. Cada partido, dependendo de seus interesses, tem a sua reforma. Os parlamentares, por ação e omissão, estão, indiretamente, dizendo às ruas que somente sob sua pressão irão tirar o assunto da gaveta.