É hora de falar de futebol
Com um dos melhores estádios de Minas, Juiz de Fora vive a amarga experiência de ficar fora do Campeonato Mineiro, o que não acontecia há 50 anos
No dia 30 de outubro de 1988, o prefeito Tarcísio Delgado cumpria um dos últimos atos de sua primeira gestão: inaugurou o Estádio Municipal, que depois se chamaria Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, em homenagem a um dos maiores incentivadores do esporte local. Uma das metas era a recuperação do futebol da cidade, diante da eterna justificativa de não haver um espaço para grandes eventos.
Passados quase 40 anos, a imagem é desoladora. Como a Tribuna destacou na edição dessa terça-feira, em matéria do repórter Vinícius Soares, Juiz de Fora não terá representantes no Campeonato Mineiro após 50 anos.
Trata-se de uma frustração coletiva, resultado de ações e omissões que tiraram o futebol de cena, embora a cidade tenha sido representada, em seus melhores momentos, por três equipes na divisão profissional: Tupi, Tupynambás e Sport.
Fantasma do Mineirão em meados dos anos 1960, quando assustava os três grandes da capital dentro de seu próprio território, o Tupi vive um momento de incertezas. Sem receita, espera o desfecho de um processo de recuperação judicial para, só a partir daí, implementar uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo de gestão instalado no Brasil a partir de 2021. Trata-se de uma estrutura que permite a criação de uma empresa independente para administrar as atividades relacionadas ao futebol profissional de um clube.
O Tupynambás, por sua vez, ainda não avançou nas obras de construção de um centro de treinamento, resultado da venda de parte de sua sede, no Bairro Santa Tereza, para uma rede de supermercados.
O Sport tem uma divisão de base consolidada, mas seus dirigentes entendem não ser possível dar um passo maior do que a perna. Só em condições ideais vão investir no futebol profissional.
Enquanto isso, cidades do entorno de Juiz de Fora – todas elas de menor potencial econômico – ganham espaço, especialmente São João del-Rei e Tombos, cujas equipes participam até de divisões nacionais. Nenhuma delas tem um estádio nos moldes do Mário Helênio. Não é, portanto, por falta de lugar que o futebol não prospera.
Houve uma única tentativa de unificar as três equipes para – em nome da cidade – montar um time capaz de enfrentar os grandes da capital e fazer bonito nas competições do estado. O Manchester foi um sonho de verão, pois resistiu apenas por duas temporadas, 1994 e 1995, embora tenha chegado à Série C.
A história do futebol de Juiz de Fora não se restringe ao Galo Carijó, que venceu Cruzeiro, Atlético Mineiro e América no Estádio Magalhães Pinto. O time chegou a ser terceiro colocado no Campeonato Mineiro, em 2008, após uma derrota para o Cruzeiro no quadrangular no Mineirão, e teve seu maior feito ao ser campeão da Série D e chegar à Série B.
É preciso avaliar o que levou o futebol local tão longe e as causas de sua derrocada. Sem isso, será impossível recuperar os tempos de glória. Hoje, o juiz-forano reforça suas preferências pelos times do Rio e de Belo Horizonte – além de paulistas e outros intrusos – diante da incômoda posição de não ter por quem torcer na cidade.









