TEMPERANÇA E ÁLCOOL


Por TRIBUNA

13/03/2015 às 06h00

O consumo excessivo de álcool entre os jovens, principalmente os universitários, é um problema que atinge a sociedade e assola as famílias no país. Dados do 1º Levantamento sobre o Uso de Álcool, Tabaco e outras Drogas entre os universitários, divulgado em 2010 pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, mostraram que um em cada quatro alunos bebia de forma nociva, ou seja 25%. Já o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012, apontou que 61% dos entrevistados entre 22 e 25 anos bebiam em “binge”, termo em inglês para consumo excessivo. Já é considerado exagerado o consumo de quatro a cinco latinhas em duas horas.

As consequências também atingem a economia. Estima-se que o país perca, por ano, 7,3% do PIB em decorrência de problemas relacionados ao álcool. Considerando o PIB de R$ 5,1 trilhões, o custo social do uso abusivo de bebida alcoólica atingiu, em 2014, algo em torno de R$ 372 bilhões.

Os holofotes na imprensa e nas redes sociais se voltaram para o assunto após a recente morte de Humberto Fonseca, 23 anos, aluno da Unesp, em Bauru, em 28 de fevereiro. O estudante morreu em decorrência de coma alcoólico após ingerir cerca de 30 doses de vodca em uma festa com bebida liberada. Na ocasião, outros seis estudantes passaram mal também por excesso de álcool.

Pais, sociedade organizada e Poder Público precisam escolher um caminho para lidar com a questão. Por um lado, há uma ideia generalizada, passada principalmente pela mídia e pelo mercado publicitário, de que a bebida está associada a prazer, conquista e sucesso. Beber muito é sinal de força, de poder. Já quem passa mal após ingerir algumas doses de cerveja, vinho ou destilados é considerado “fraco”. Por outro, o Governo vem endurecendo as leis para tentar inibir o consumo excessivo, vide a Lei Seca e o recente projeto que tipifica como crime, no Estatuto da Criança e do Adolescente, a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. O texto, já aprovado no Congresso, agora vai a sanção presidencial e prevê detenção de dois a quatro anos e multa de R$ 3 mil a R$ 10 mil pelo descumprimento da proibição.

O país tem um desafio grande pela frente. Ou estabelece ações claras e responsáveis, com educação em todos os níveis, a começar pelas famílias, passando pela escola e esferas públicas, para um consumo mais moderado e responsável, com regulação mais rígida do mercado, ou corre o risco de continuar perdendo essa guerra para o álcool. Como disse o filósofo André Comte-Sponville no seu livro “Pequeno tratado das grandes virtudes”, “a temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos”.