REALIDADE E FICÇÃO


Por Tribuna

12/11/2011 às 07h00

A história pode ser uma forma fantasiosa de contar a trajetória do líder do tráfico na Rocinha, mas o que se disse ontem, um dia após a prisão de Nem, como ele é conhecido, é que sua entrada no tráfico foi para pagar uma dívida. Como não tinha dinheiro, passou a prestar serviços até chegar ao topo da pirâmide, há cerca de dez anos. Ficção ou não, ela é plausível, uma vez que a ascensão no mundo do crime tem critérios próprios, fugindo dos padrões de qualidade da vida comum ou do apadrinhamento rotineiro nas instâncias de poder. A lição a ser tirada é a preocupação que se deve ter com a juventude. Muitos adolescentes estão apartados da vida social em função do lado lúdico mostrado pelo crime, que faz deles líderes, chefes, gerentes e outros adjetivos, sem levar em conta os riscos e os danos. Seduzidos por um discurso fácil, tornam-se massa de manobra dos verdadeiros donos, entrando, muitas vezes, num caminho sem volta.

Por isso, o enfrentamento ao crime não deve se esgotar na repressão. É necessário ampliar as oportunidades para os adolescentes não apenas com geração de empregos, mas também com ações que demonstrem que do outro lado da força também é possível encontrar alternativas positivas e sem os riscos que os acompanham quando optam pela violência. Isso se faz com programas de lazer, de educação e de políticas públicas que garantam saúde e segurança e, sobretudo, a perspectiva que ora lhes falta no dia a dia.

A despeito de todas as ações oficiais, a discussão em torno das drogas ainda é precária, barrada ora pelo preconceito de se encarar questões importantes, como a descriminalização, ora pela falta de vontade política das lideranças, que preferem o lado fácil de jogar a ação policial como único caminho. Há um cenário de incertezas sobre o futuro pelo mundo afora, mas não dá para ficar esperando soluções de outros países para se dar mais um passo na discussão.