ESPAÇOS VAZIOS


Por Tribuna

11/12/2011 às 07h00

A insegurança que altera a rotina das escolas, fruto do enfrentamento de gangues, como apontou a Tribuna na última sexta-feira, faz parte de um cenário cuja solução não é encontrada no curto prazo, embora o clamor coletivo seja nesse sentido. Trata-se de um problema profundo, que envolve várias questões. Não basta dizer que os jovens se enfrentam apenas por conta do território, na velha discussão sobre o pertencimento, pois tal argumento, embora sólido, é insuficiente para explicar a insanidade que tomou conta das ruas. Este ano, dois adolescentes, ambos de 14 anos, foram mortos, tendo como autores – de acordo com os indícios – também adolescentes.

Mas é possível levar em conta fatores que extrapolam as divisas municipais, já que tais enfrentamentos não são uma característica local, mas próprios das metrópoles, cada vez mais partidas em categorias, classes sociais e outros fatores que provocam rupturas permanentes. Um deles é o papel da família, ponto vital em qualquer debate sobre como enfrentar o problema. A despeito da melhoria econômica do país, um dos focos é a desestruturação dos lares, onde falta linguagem para consolidar o relacionamento, repercutindo diretamente na formação dos adolescentes. Junte-se a isso o individualismo exacerbado pela internet, onde, paradoxalmente, se fala com o mundo, mas quase sempre no canto de uma sala ou na solidão do quarto. Já não se conversa em termos convencionais, ficando as mensagens cifradas como única comunicação. O Twitter amplia o desejo de se mostrar, mas cada um na sua.

Finalmente, é necessário apontar o papel do Estado com a educação. É, junto com a família, a âncora mais consistente para a formação dos jovens. Na medida em que amplia o conhecimento, o homem reduz a intolerância e passa a compreender melhor o outro. Hoje, num mundo onde os ideais foram para o ralo, diferente de outras épocas onde havia uma causa, entender é preencher os espaços vazios, pois só assim será possível dar sentido a uma existência, hoje sem um norte e, para parte desses atores, sem perspectiva.