GENERAL NO LABIRINTO


Por Tribuna

07/03/2013 às 07h00

O prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez é talvez um dos escritores que melhor entenderam a América Latina. Em seus vários livros, a começar pelo memorável Cem anos de solidão, relatou, com seu realismo fantástico, a saga de um povo conquistado em busca da identidade própria. Mas foi em O general em seu labirinto que ele retratou a emblemática figura do libertador Simón José Antônio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios, conhecido apenas como Simón Bolívar. Morto precocemente aos 47 anos, é considerado um herói visionário. E, como os dicionários o tratam, foi o George Washington – que proclamou a independência americana – da América do Sul.

Bolívar, líder da luta pela independência da Bolívia, Colômbia, Venezuela, do Equador, Panamá e Peru era a principal referência para o coronel Hugo Chávez, vencido por um câncer na última terça-feira. O presidente venezuelano queria se transformar no libertador do século XXI, por entender que a América Latina, a despeito de todos os avanços, ainda ostentava uma dependência atávica do mundo capitalista. O pacto bolivariano, uma réplica de unidade que defendeu, não era apenas um instrumento de sua articulada retórica; era um ideal de luta que ele ostentou até seus últimos dias.

Na ONU, num de seus memoráveis pronunciamentos, chamou a atenção do mundo ao citar o cheiro de enxofre que se instalou na tribuna que ocupava. O diabo esteve aqui, numa alusão ao então presidente dos EUA George Bush, que o antecedera. Por seu estilo, teve que ouvir um por que não te calas?, emitido pelo rei Juan Carlos da Espanha. Mas sua voz só cessou por conta da doença.

Chávez ainda será julgado pela história. Usou a força para manter-se no poder, silenciou a oposição, inclusive a mídia, e quase quebrou o país com o uso desmesurado dos lucros do petróleo, mas reduziu drasticamente a pobreza. Enfrentou o poder dos ricos e da elite branca que dominava um país de mestiços, como ele próprio. Não tinha limites, mas foi, desde sua chegada ao poder, uma das lideranças mais emblemáticas do continente, por suas alianças e pelo seu pragmatismo. Os EUA eram o demônio, mas não deixou de vender seu petróleo aos americanos por um só dia.

A questão, agora, é como será administrado o seu legado. Num cenário de poder absoluto, as lutas pela sucessão costumam ser duras, preocupando não apenas os vizinhos, mas, e sobretudo, o povo venezuelano.