BR-440


Por FERNANDO C. DE MOURA E SILVA

02/12/2011 às 07h00

O Brasil tem três deficiências graves que o afastam dos países desenvolvidos: infraestrutura, saúde e educação. A discussão que se abre em torno da construção da BR-440 é formidável aula prática, que demonstra bem a raiz dessas falhas estruturais. Existem no país cerca de 200 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, contra quatro milhões de quilômetros nos Estados Unidos. Isso sem falar que cerca de 70% da malha rodoviária brasileira estam em mau estado de conservação. Metade das emissões de CO2 no Brasil é originada da queima de combustíveis no setor de transporte rodoviário. Nas cidades, o grande problema são os congestionamentos, que aumentam ainda mais o consumo. Quanto mais tempo o veículo ficar no trânsito, maior o volume de emissões. Os caminhões não vão diminuir, pois atendem à demanda da própria população. Mas pode-se diminuir a sua permanência nos centros urbanos, melhorando a qualidade do ar. O planeta agradece.

Quase a totalidade do esgoto residencial em Juiz de fora é jogada sem tratamento nos nossos rios. O Paraibuna, rio símbolo que corta a cidade de ponta a ponta, está morto. O mau cheiro do córrego São Pedro, seu afluente, pode ser sentido com facilidade. Escancara o problema de saúde pública e meio ambiente e aponta para os riscos de futuras doenças. A tímida (e rara) iniciativa do Governo de construir a BR-440 deveria ser olhada como uma bela oportunidade para se obter para a população mais benefícios com o dinheiro público. A licença ambiental, as desapropriações e o contrato com empresa de construção deveriam ensejar, por exemplo, a implantação de um interceptor de esgoto nas duas margens do córrego, destinando os efluentes para estação de tratamento e posterior despejo no nosso Paraibuna. Mas ninguém se lembrou dele.

A represa de São Pedro, responsável por 8% do abastecimento de água da cidade, também foi esquecida. À beira da morte, seria interessante um projeto integrado e sustentável de proteção do manancial, e quem sabe ressuscitaríamos o também já falecido córrego. A comunidade poderia se lembrar da represa e exigir a complementação financeira necessária para esse projeto. Os políticos apoiariam, o dinheiro chegaria, e todos ficariam bem na foto. Se os caminhões passarem rápido pela cidade, tanto melhor, uma vez que não será possível eliminá-los. É a tal de eficiência energética que o mundo todo fala. Vamos praticá-la, os pulmões dos habitantes agradecem. Os pulmões infelizmente não foram lembrados.

A canalização parcial do córrego vai ajudar a eliminar um risco à saúde pública, mas quem se importa? E o impacto ambiental pode ser facilmente manejado pela exigência da contrapartida do reflorestamento das imensas áreas degradadas da cidade. Esquecimento. Os problemas já estão aí há muito tempo e são muitos. Soluções? O esgoto a céu aberto de São Pedro faz lembrar a África; a BR-440 é a oportunidade de melhorar a vida da cidade nos quesitos infraestrutura e saúde. Essa é a mobilização que a cidade precisa fazer. Por outro lado, infelizmente, a obra não pode fazer nada pela nossa educação.