GASOLINA NO FOGO


Por Tribuna

01/09/2013 às 07h00

A atitude de pelo menos dois partidos – PSDB e PPS – de recorrer à instância judicial para anular a absolvição do deputado Natan Donadon é a prova material de reconhecimento da barbeiragem da Câmara Federal. Nos diversos depoimentos prestados após a fatídica votação, parlamentares faziam mea culpa e admitiam que foi um erro coletivo, que só poderia ser sanado pela instância judicial. E surge aí um contrassenso. Nas várias vezes em que a Justiça tentou reparar erros do Legislativo, o grito corporativo, o mesmo que manteve o mandato do deputado, se rebelou, sob o argumento de intervenção de uma instância de poder sobre a outra, quebrando uma cláusula pétrea da Constituição que estabelece que os poderes são iguais e independentes.

Mas o mal já está feito, e somente o Judiciário poderá corrigir uma questão que, certamente, será cobrada pelas ruas. O voto contra a cassação e a abstenção dos ausentes – salvo as justificativas aceitáveis – são gasolina na fogueira num cenário que se avizinha preocupante. Embora as ruas tenham temporariamente silenciado, o tráfego de discussão pelas redes sociais continua intenso, com protestos de toda sorte. Bastará a primeira convocação para tudo começar de novo.

E nesta volta, o Congresso, certamente, será cobrado por sua leniência. Livrar um deputado condenado pela Justiça na última instância, e já cumprindo pena, foi uma ofensa ao Supremo e à própria sociedade, que tenta acreditar nas instituições, mas percebe que elas próprias se degradam por ações e omissões.