Quando o direito de greve leva à terceirização da inclusão de surdos

“Não há educação inclusiva quando alguns atores não se reconhecem como parte desse processo”


Por Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins*

26/04/2026 às 08h00

A greve não é um privilégio nem um capricho, mas um direito histórico da classe trabalhadora, assegurado pela Constituição, construído a partir de muitas lutas coletivas por dignidade e melhores condições de trabalho. Negar esse direito aos profissionais técnico-administrativos em Educação (TAEs), em nosso caso aos tradutores intérpretes de Libras (TILSP), é negar a condição de trabalhadores e reforçar uma lógica perversa que naturaliza a sobrecarga e invisibiliza a humanidade.

No entanto, em meio aos movimentos grevistas (movimento de direito), uma questão recorrente emerge: como ficam os alunos surdos da graduação e da pós-graduação? A pergunta é legítima, mas frequentemente mal direcionada. Ela costuma recair, quase automaticamente, sobre os intérpretes de Libras, como se a inclusão desses estudantes fosse responsabilidade exclusiva desses profissionais. Essa lógica revela um problema estrutural profundo: a terceirização da inclusão.

A literatura crítica e específica da área aponta que os TILSP, frequentemente, são reduzidos a instrumentos de acessibilidade, desconsiderando sua condição de trabalhadores, pesquisadores e sujeitos sociais. Essa coisificação se manifesta quando se espera que assumam, sozinhos, a garantia do acesso educacional de estudantes surdos, mesmo em contextos adversos como a greve. Tal expectativa não apenas é injusta, como também é pedagogicamente equivocada. A inclusão, por definição, não pode ser delegada.

Ela é uma responsabilidade coletiva que envolve “o todos” de uma estrutura institucional. Os docentes têm o dever ético, social, político e profissional de pensar estratégias de ensino que contemplem a diversidade de seus alunos. Isso implica planejar aulas baseando-se em práticas inclusivas, desenvolvendo metodologias alternativas e assumindo o compromisso com uma educação acessível para todos, inclusive para os alunos surdos que estão sem intérprete de Libras temporariamente — e não apenas para aqueles que se encaixam no modelo hegemônico de ensino.

E quando os professores entram em greve, exercendo um direito legítimo e constitucional, assim como os TAEs, como ficam os discentes surdos? Será que há uma preocupação tanto quanto no período de luta dos TILSP? Será que os docentes não seriam os essenciais? No entanto, a suspensão das atividades, de tradução e interpretação ou de ensino, escancara fragilidades estruturais já existentes. A ausência de planejamento inclusivo prévio faz com que os alunos surdos sejam, mais uma vez, os mais afetados. E, novamente, a cobrança recai sobre os intérpretes. Esse ciclo se repete: entra greve, sai greve, e a mesma pergunta retorna — não como uma reflexão institucional, mas como responsabilização individual e de uma categoria específica.

Defender o direito de greve dos intérpretes de Libras é, portanto, defender não apenas uma categoria profissional, mas também a coerência das políticas públicas de inclusão em todos os âmbitos de nossa sociedade (Federal, Estadual, Municipal). Não há inclusão real quando ela depende exclusivamente de um único agente. Não há educação inclusiva quando alguns atores não se reconhecem como parte desse processo. E não há justiça social quando se exige de alguns aquilo que deveria ser compromisso de todos. É urgente romper com essa lógica. A inclusão precisa deixar de ser um discurso e se tornar prática institucional efetiva. Isso exige formação docente, planejamento coletivo e responsabilidade compartilhada. Os intérpretes são fundamentais, mas não podem — e não devem — E NÃO VÃO carregar sozinhos o peso de uma inclusão que é, por essência, coletiva E TERCEIRIZADA.

*Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins é doutor em Ciências Sociais

 

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