Jornalismo: como ajudar a sociedade a entender as tragédias climáticas

“O jornalismo não pode parar na emoção do acontecimento. Agora começa outra etapa: a de compreender, investigar e explicar”


Por Marise Baesso*

18/03/2026 às 08h00

Acabo de me inscrever na Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. É o que cabe a mim como jornalista: tentar me qualificar cada vez mais para levar às pessoas informações que ajudem na construção de um mundo melhor. Estamos atrasados em muitas frentes: nas políticas públicas, nos recursos destinados à prevenção de desastres e também na maneira como informamos a população. Ainda precisamos avançar muito para que a comunicação ajude as pessoas a compreender a gravidade do momento histórico que vivemos e para que governos sejam mais fiscalizados. Não basta atacar apenas no socorro, é preciso agir na prevenção.

O que vimos em Juiz de Fora, no Rio Grande do Sul, em Petrópolis (RJ) e em tantos outros lugares do país não foram simplesmente “desastres naturais”. Foram tragédias climáticas que tendem a se repetir com cada vez mais frequência. A ciência já vem alertando há décadas sobre isso. A pergunta que fica para nós, jornalistas, é: como comunicar essa realidade de forma responsável, clara e mobilizadora?

Como ajudar a sociedade a compreender que o modelo de desenvolvimento que temos adotado cobra um preço alto demais? Como explicar que decisões aparentemente técnicas, como liberar construções em áreas de risco, flexibilizar leis ambientais ou ignorar estudos científicos, podem custar vidas humanas? Como mostrar que a tragédia não começa quando a chuva cai, mas muito antes, nas decisões políticas e econômicas que moldam as cidades?

Fazer jornalismo ambiental não é apenas cobrir enchentes, deslizamentos ou queimadas. É discutir os modelos de desenvolvimento, questionar interesses econômicos, ouvir cientistas, urbanistas e especialistas, e explicar de forma didática o que está em jogo. É também saber reconhecer e denunciar práticas como o greenwashing, estratégia de marketing enganosa na qual empresas criam a aparência de responsabilidade ambiental para atrair consumidores conscientes, sem mudar de fato seus processos ou impactos.

Na cobertura recente da tragédia que deixou 65 mortos em Juiz de Fora e outros sete em Ubá, tivemos um primeiro momento importante. A imprensa local fez uma cobertura necessária e, em muitos casos, profundamente humanizada. Como jornalistas, choramos junto com as famílias, contamos histórias, mostramos a dimensão da dor e prestamos um serviço essencial ao alertar e orientar a população em meio ao caos.

Mas o jornalismo não pode parar na emoção do acontecimento. Agora começa outra etapa: a de compreender, investigar e explicar. Precisamos recorrer à ciência, aos estudos sobre clima, urbanização e gestão de riscos. Precisamos perguntar o que falhou, o que poderia ter sido evitado e o que precisa mudar para que novas tragédias não se repitam.
Estamos também em um ano eleitoral. Isso torna o debate climático ainda mais urgente. A sociedade precisa saber quais são os projetos para as cidades, quais políticas de prevenção estão sendo propostas, como serão tratados temas como ocupação urbana, drenagem, preservação ambiental e adaptação climática.

O papel do jornalismo é ajudar a transformar informação em consciência pública. Só assim os cidadãos podem fazer escolhas mais livres e responsáveis, seja nas urnas, no consumo e na vida cotidiana. Diante da crise climática, a responsabilidade do jornalismo só tende a crescer. E a nossa obrigação é estar à altura desse desafio.

*Marise Baesso é jornalista

 

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