Habermas, o filósofo do agir comunicativo
“A morte de Jürgen Habermas marcou o fim de uma das mais influentes vozes da filosofia contemporânea”

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Adicionar Tribuna de MinasA morte de Jürgen Habermas, ocorrida em 14 de março deste ano, marcou o fim de uma das mais influentes vozes da filosofia contemporânea, especialmente no campo da ética e da política. Sua obra se ergue como uma resposta crítica ao predomínio da razão instrumental, que reduz a racionalidade ao cálculo de meios para fins, frequentemente dissociados do bem humano.
Habermas percebeu com lucidez que o mundo moderno, moldado pela técnica e pela eficiência, corre o risco de perder o horizonte normativo que orienta a ação humana. Nesse contexto, sua ética do discurso surge como tentativa de resgatar a dimensão propriamente racional da vida moral, fundada não no êxito estratégico, mas no entendimento entre sujeitos livres e iguais.
O núcleo de sua proposta consiste na ideia de que normas válidas são aquelas que podem obter o assentimento de todos os envolvidos em um processo de argumentação livre de coerção. A verdade moral não é imposta, mas construída no espaço intersubjetivo do diálogo, onde cada participante é chamado a justificar racionalmente suas posições. Essa concepção representa um avanço significativo frente ao individualismo ético, pois desloca o centro da moralidade do sujeito isolado para a comunidade comunicativa. Ao mesmo tempo, preserva a pretensão de universalidade, evitando o relativismo que dissolve a ética em meras convenções culturais.
Contudo, é precisamente nesse ponto que emerge uma tensão fundamental. Habermas busca fundamentar a universalidade da norma não em uma ordem ontológica do ser, mas no consenso racional obtido no discurso. A validade moral depende, assim, de condições ideais de comunicação, e não de um bem em si.
Ora, pode-se questionar se o consenso, mesmo racional, é suficiente para garantir a verdade moral. A tradição metafísica, especialmente na linha tomista, sustenta que a universalidade do bem se funda na própria estrutura do ser, que se apresenta à inteligência como inteligível e desejável. Nesse horizonte, o espírito humano não cria o bem, mas o reconhece. Sua abertura ilimitada ao ser remete a um bem igualmente ilimitado, que não pode ser reduzido ao acordo entre consciências, ainda que esse acordo seja necessário.
Habermas, por sua vez, insiste na ilimitada capacidade de comunicação e entendimento entre os sujeitos, vendo na linguagem o lugar originário da racionalidade. Essa intuição é profundamente fecunda e revela uma dimensão essencial do humano: sua vocação ao diálogo e à comunhão. Talvez, porém, o desafio filosófico mais alto consista em articular essas duas dimensões: a abertura ao outro e a abertura ao ser. Pois o diálogo autêntico não se sustenta apenas na reciprocidade dos interlocutores, mas na referência comum à verdade que os transcende.
Assim, a ética do discurso permanece como uma contribuição decisiva para o pensamento contemporâneo, ao denunciar os limites da razão instrumental e reafirmar a centralidade da comunicação. Mas sua plena fecundidade talvez se realize quando reencontrar seu fundamento último na universalidade do bem que ilumina e orienta toda razão humana.
*Elílio de Faria Matos Júnior é padre e professor de filosofia e teologia
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