O poder do gesto que ninguém vê

“A verdadeira solidariedade não exige diploma, dinheiro ou grandes feitos”


Por Alexandre Augusto*

05/12/2025 às 07h00

Todo 5 de dezembro me faz revisitar uma convicção que carrego como psicólogo e como ser humano: subestimamos profundamente o poder dos pequenos gestos. O Dia Internacional do Voluntário costuma remeter a grandes projetos, ações estruturadas e iniciativas de grande alcance. Mas, ao longo dos anos, percebi que a solidariedade que realmente transforma começa muito antes — e é muito mais simples do que imaginamos.

Vivemos em uma sociedade apressada, imediatista, saturada de estímulos e com baixa tolerância para as emoções do outro. Quase não escutamos mais. As pessoas iniciam uma fala sobre suas angústias e, antes que terminem a frase, já estamos com conselhos prontos, tentando encerrar a conversa rapidamente. Tenho visto isso se repetir com frequência, e sempre lembro que um dos maiores presentes que podemos oferecer é justamente a escuta sem interrupções. Essa atitude, tão básica, pode evitar sofrimentos profundos — e também fortalece quem escuta.

Como psicólogo, sei que a ciência confirma: ajudar faz bem para o cérebro. A solidariedade libera dopamina, que nos dá sensação de prazer e recompensa, e ocitocina, que reforça vínculos e confiança. Não é apenas o outro que se beneficia; nós também nos tornamos mais saudáveis emocionalmente quando estendemos a mão.

Mas há um aspecto que considero crucial refletir: a motivação. Vivemos uma era em que a solidariedade virou espetáculo. Muitas pessoas sentem a necessidade de registrar tudo, publicar tudo, provar tudo. E eu sempre digo: quando o gesto existe para alimentar o ego, e não para aliviar a dor de alguém, deixamos de ser solidários. Passamos a buscar reconhecimento, e isso não tem relação alguma com voluntariado genuíno.

A verdadeira solidariedade não exige diploma, dinheiro ou grandes feitos. Ela acontece na intimidade das relações, nos espaços onde ninguém aplaude. Uma mensagem verdadeira enviada no momento certo, um sorriso sincero, uma ajuda prática dentro de casa, perguntar a alguém da família: “Você está bem? Precisa de alguma coisa?”. São atitudes que parecem pequenas, mas que mudam o dia — e às vezes a vida — de alguém.

Também é preciso lembrar que aquilo que compartilhamos nas redes influencia diretamente nosso estado emocional. Se passamos o dia cercados de negatividade, nos alimentamos dela. Se passamos a compartilhar gestos positivos, fortalecemos não só quem recebe, mas a nós mesmos.

No Dia Internacional do Voluntário, reafirmo o que sempre ensino: solidariedade começa onde estamos, com o que temos, e com quem convive conosco. Não precisa de luzes, palco nem testemunhas. Precisa de intenção genuína.

Porque, no fim das contas, são os gestos que ninguém vê que mais revelam quem realmente somos — e são eles que têm o maior poder de transformar o mundo ao nosso redor, e também o nosso próprio mundo interno.

*Alexandre Augusto é coordenador do curso de Psicologia da Estácio

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