Para onde vai o dinheiro?

“Os cidadãos mineiros têm o direito de saber para onde está indo o dinheiro de seus impostos”


Por Luciano Furtunato de Souza*

05/03/2026 às 08h00

Nos últimos dias, uma triste notícia tem ocupado espaço na imprensa nacional: a tragédia que atingiu, sobretudo, as cidades de Ubá e Juiz de Fora, em decorrência das fortes chuvas no início da semana passada. Segundo as autoridades, os dois municípios somam muitas dezenas de mortes e milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas. Trata-se de uma tragédia de grandes proporções. Manifestamos, aqui, nossa solidariedade a todos que vivem esse momento de profunda tristeza.

Entre as diversas discussões suscitadas pelo ocorrido, uma tem ganhado destaque: o papel do governo do Estado, considerando que a gestão do governador Zema reduziu de R$ 135 milhões para R$ 5,8 milhões a verba destinada ao combate às chuvas em Minas Gerais.

Diante desse cenário, impõem-se algumas perguntas: a tragédia que atingiu Ubá e Juiz de Fora poderia ter sido evitada ou ao menos minimizada caso esses investimentos tivessem sido realizados? Qual é a responsabilidade dos gestores públicos em situações como essa? E, sobretudo, para onde vai o dinheiro público?

Quanto a última questão, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais oferece dados relevantes. Segundo o órgão, entre 2017 e 2024, o Estado renunciou a aproximadamente R$ 128,3 bilhões em receitas. Em termos comparativos, esse montante representa mais de 70% da dívida com a União, que, em 2025, era estimada em R$ 180 bilhões.

Em maio de 2025, o vice-governador Mateus Simões, durante um café com jornalistas enquanto exercia interinamente o cargo de governador, afirmou que não concordava com o sigilo sobre as empresas beneficiadas por isenções fiscais e que pretendia revogá-lo em poucos dias.

Entretanto, isso não ocorreu. O governo estadual segue sem cumprir a promessa e mantém sob sigilo os dados das empresas que recebem benefícios fiscais.

Em agosto de 2025, o governador Zema, convidado do programa Roda Viva, da TV Cultura, esquivou-se de uma pergunta feita pela jornalista Bertha Maakaroun, do Estado de Minas, sobre a transparência na concessão de isenções fiscais a empresas instaladas no Estado. De acordo com a projeção da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2026, essas isenções passaram de R$ 7,9
bilhões, em 2019, para R$ 25,2 bilhões.

É importante compreender que, quando o governo concede isenções fiscais, está abrindo mão de recursos que poderiam ser aplicados em benefício da população, especialmente na prestação de serviços públicos e em ações de prevenção, combate e resposta aos danos causados pelas chuvas.

Os cidadãos mineiros têm o direito de saber para onde está indo o dinheiro de seus impostos, e o Estado tem o dever de garantir transparência nessas informações. Afinal, o dinheiro é público e deve ser utilizado em favor da população.

*Luciano Furtunato de Souza é professor de História

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