Início de nova era
Em tempos de intolerância com o outro, Juiz de Fora dá um passo importante e torna-se referência nacional no setor de saúde mental. O fim de todos os hospitais psiquiátricos e a criação de uma rede de assistência possibilitaram esse papel ao município, que foi visitado na última semana pelo coordenador nacional de Saúde Mental do Ministério Público, Roberto Tykanori. Lidar com a loucura e com todas as formas de diferença e divergências historicamente sempre foi um capítulo difícil, mas hoje a maioria dos estudos mostra que o hospital psiquiátrico é o mais violento espaço da exclusão.
O caminho traçado por Juiz de Fora não é o mais fácil, e o fato de tornar-se referência torna este trajeto ainda mais espinhoso, porque, como o próprio secretário de Saúde, José Laerte, lembrou, daqui para frente, será preciso ainda mais apoio político, envolvimento das famílias, dos servidores da área e de toda a sociedade. O primeiro passo foi dado com a construção das residências terapêuticas, rede substitutiva aos hospitais, mais humanizadas e descentralizadas. No entanto, hoje a cidade tem 22 dessas residências, e outras serão necessárias. Os pacientes em crise vão continuar a ser levados aos leitos, mas agora de hospitais gerais. Os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) precisarão dar o suporte sempre que necessário, no sentido de resgatar verdadeiramente a cidadania destes que nunca foram ouvidos pela sociedade.
As primeiras lutas por uma sociedade sem manicômios começaram na década de 1980 e, até hoje, cada avanço precisa ser comemorado. Desospitalizar é, sim, um avanço, mas há necessidade de desconstruir um modelo centrado na doença e tratar o paciente como sujeito, construindo possibilidades para ele. É preciso que o tratamento deixe efetivamente de ser a exclusão e torne-se uma possibilidade concreta de sociabilidade. Para isso, porém, a sociedade brasileira precisa se envolver e aprender a lidar com os seus diferentes e com todos aqueles que estão em desvantagem social. Por outro lado, é preciso haver segurança de que existe uma rede de assistência pública em que os principais envolvidos e seus familiares possam recorrer e confiar.











