Últimos pacientes do Hospital Colônia de Barbacena são transferidos e instituição encerra atividades 

14 pacientes institucionalizados foram transferidos e passam a viver em residência terapêutica no município


Por Beatriz Bath*

26/05/2026 às 10h41

Os últimos 14 pacientes remanescentes do extinto Hospital Colônia de Barbacena foram transferidos efetivamente para um lar terapêutico no município. O encerramento das atividades do hospital foi marcado pelo fechamento simbólico, com cadeado, da porta do Pavilhão Antônio Carlos, gesto que representa o compromisso do Governo de Minas Gerais de não repetir essa história.

Com a transferência dos pacientes para um lar terapêutico, o Centro Hospitalar Psiquiátrico seguirá sendo referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais, como se consolidou nas últimas décadas, dentro dos critérios da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. Vários aqui presentes estiveram conosco nesse caminho. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria, um legado do qual me orgulho com vocês”, afirmou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.

A mudança de endereço dos residentes representa não só uma mudança física, mas também o fim de um ciclo de exclusão social e isolamento. Em média, os moradores permaneceram 49 anos internados, sendo que a média de idade atual do grupo é de 73 anos. Três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos.

Os profissionais que se dedicaram aos pacientes remanescentes nos últimos anos foram lembrados pela presidente da Fhemig, Renata Dias, e pelo atual diretor do Complexo Hospitalar de Barbacena, Claudinei Emídio Campos. “Mesmo com toda a emoção que estamos vivendo aqui, não posso deixar de agradecer aos nossos servidores e a todos que fizeram esse momento acontecer. Não tem como ouvir essas histórias e não imaginar o quanto o caminho foi difícil para todos”, disse a presidente.

Lembrar para não repetir

Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço passou a ser conhecido, em 1911, como Hospital Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais.

A existência do hospital tornou-se símbolo da luta antimanicomial no Brasil por seu histórico de superlotação, abandono e violação de direitos. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente.

“Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado”, afirmou a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado.

A história de Barbacena segue ganhando repercussão e sendo documentada, com parte dessa memória sendo preservada no Museu da Loucura.

Cuidar em liberdade

Desde 2019, a SES-MG conduz o processo de desinstitucionalização de usuários no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). Desde então, 68 moradores do CHPB receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, foi registrado o maior número de altas do período, com 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos nos municípios de Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga.

Ao longo desse período, o Estado investiu mais de R$ 718 milhões em ações de saúde mental em Minas Gerais e, atualmente, o estado possui 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dos quais 65 são voltados exclusivamente ao atendimento de crianças e adolescentes.

A assistência psiquiátrica no CHPB segue funcionando normalmente, dentro dos protocolos e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).

*Estagiária sob a supervisão da editora Mariana Floriano